31 de out de 2010

Parto na água


E para encerrar o mês de estréia do blog: mais um esclarecedor artigo da Dra. Melania Amorim, desmistificando e mostrando evidências científicas sobre parto na água, ainda sob os resquícios do polêmico parto da modelo Gisele Bündchen, na banheira de sua casa!

Vídeo de um parto na água assistido pela própria Dra. Melania Amorim

Muito tem se debatido sobre o parto na água: é seguro? Quais as vantagens? Há maior risco de infecção? Quais os riscos para o bebê? Existem contra-indicações? O fato é que cada vez essa modalidade de parto tem se tornado disponível em diversas maternidades e pode representar também uma opção para os partos domiciliares (1).

A imersão em água durante o trabalho de parto tem sido referendada como um método útil para o alívio da dor do parto. Uma revisão sistemática disponível na Biblioteca Cochrane avalia a imersão em água durante o primeiro e o segundo estágios do parto (dilatação e expulsão, respectivamente) (2). Foram incluídos 11 ensaios clínicos randomizados (ECR), dois dos quais avaliaram a imersão em água durante o período expulsivo. Nos ECR avaliando a imersão em água durante a fase de dilatação, observou-se significativa redução da dor e decréscimo da necessidade de analgesia farmacológica (peridural ou combinada). Os autores sugerem que a imersão em água durante o primeiro estágio do parto pode ser recomendada para parturientes de baixo-risco (2).

Nos dois ensaios clínicos avaliando o segundo estágio, ou seja, o parto assistido na água, não houve aumento do risco de desfechos maternos e neonatais adversos e verificou-se aumento da satisfação materna (3,4). No entanto, devido ao pequeno número de casos (240) e ao fato de várias mulheres randomizadas para ter parto na água na verdade pariram fora da água, as informações foram limitadas e os autores da revisão sistemática comentam que as evidências são insuficientes para recomendar ou contra-indicar o parto na água. Um outro ensaio clínico randomizado foi publicado depois desta revisão sistemática (5) e os seus resultados devem em breve ser incorporados, podendo gerar novas conclusões: neste estudo, verificou-se, além da redução da necessidade de analgésicos, menor duração do parto e redução do risco de cesárea no grupo que teve o parto na água.

Tendo em vista a escassez de ensaios clínicos randomizados (evidência nível I), e considerando que pode ser de fato difícil randomizar as mulheres para essa modalidade de parto, uma revisão sobre vantagens e desvantagens do parto na água deve se estender aos estudos observacionais, embora esses representem uma evidência de qualidade mais baixa (nível II) (6). Alguns relatos de caso (7,8) sugerem efeitos prejudiciais para o recém-nascido, relacionando maior risco de desconforto respiratório no período neonatal. Entretanto, relatos de caso constituem um nível de evidência muito pobre (nível III ou IV), porquanto uma relação causal não pode ser estabelecida. Assim, estudos observacionais incluindo grande número de casos e comparando partos na água e fora da água devem ser privilegiados.

Um grande estudo publicado em 2004 comparou 3.617 partos na água e 5.901 controles (9). O parto na água se associou a redução das lacerações perineais, menor perda sanguínea e menor necessidade de analgesia de parto. Não houve diferença na taxa de infecção materna e neonatal. Outros estudos publicados nos anos subseqüentes confirmaram esses achados, sugerindo que o parto na água representa uma alternativa valiosa e promissora ao parto fora da água (10, 11, 12, 13). O estudo mais recente foi publicado em 2007 e demonstrou ainda que a imersão em água se associou com menor duração tanto da fase de dilatação como da fase de expulsão do parto, sem aumento do risco de infecção materna e neonatal (14). Todos esses estudos destacam que critérios rigorosos de seleção foram observados e que essas conclusões só podem ser extrapoladas para parturientes de baixo-risco.

Uma preocupação constante de vários leigos e mesmo de alguns profissionais é o risco de aspiração de água, traduzido pelo receio de que “o bebê se afogue”. Devemos, porém, lembrar, que o bebê saudável só “respira” efetivamente quando sai da água. Imediatamente depois do nascimento em água morna (que inibe a respiração), o bebê se mantém como dentro do útero, quando estava imerso em líquido amniótico: a “respiração” não está estabelecida e as trocas gasosas seguem se efetuando através do cordão umbilical. Mantém-se intacto o reflexo de mergulho, de forma que mesmo uma ou duas gotas de água na laringe são suficientes para desencadear esta resposta, inibindo a inalação de líquido (15).

O risco de aspiração ocorre para os bebês deprimidos (com hipoxia grave), que podem até aspirar o próprio líquido amniótico e, por não terem um bom clearance pulmonar, não expelem o líquido aspirado (16). Deve-se concluir, portanto, que o parto na água não é uma boa opção quando existe o risco de sofrimento fetal e deve ser contra-indicado na presença de padrões anômalos de freqüência cardíaca fetal (10-14, 17). Salienta-se que a monitorização da freqüência cardíaca fetal é importante tanto para partos na água como fora da água, e seu rigor durante o trabalho de parto deve ser observado (17), de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) (18).

O American College of Obstetricians and Gynecology (ACOG) não tem posição oficial sobre o parto na água, e no Brasil a Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) também não se manifestou sobre o tema. Entretanto, na Inglaterra, tanto o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists como o Royal College of Midwives explicitamente apóiam a imersão de água durante o trabalho de parto e o nascimento, tendo publicado uma diretriz específica sobre o assunto (17).

Em suma, respondendo aos questionamentos no início deste artigo, podemos concluir que o parto na água representa uma opção segura para parturientes de baixo-risco que assim o desejem, devendo-se respeitar a autonomia feminina com respeito à decisão do local de parto. Existem algumas vantagens, como redução da necessidade de analgesia, redução de episiotomia e lacerações espontâneas, menor duração do primeiro e do segundo estágio do parto e maior satisfação materna. Não foi documentado maior risco de infecção materna ou neonatal. O risco de aspiração só existe para bebês deprimidos ou acidóticos, de forma que a ausculta fetal é essencial para monitorização do trabalho de parto. Gestações de alto-risco e presença de padrões anômalos de freqüência cardíaca fetal representam contra-indicações para o parto na água.

Dentro de uma filosofia de respeito à autonomia materna, as mulheres devem ser informadas sobre as evidências disponíveis acerca do parto na água, devendo fazer uma escolha livre e esclarecida. Possíveis riscos e contra-indicações devem ser discutidos e, como em qualquer procedimento durante a assistência ao parto, deve-se obter a assinatura do termo de consentimento. Fundamental ainda é que o parto na água deve ser assistido por profissionais habilitados com experiência nessa modalidade (17).

Referências:
1.Kitzinger S. Letter from Europe: water birth: just a fad? Birth 2009; 36 :258-60.http://www3.interscience.wiley.com/cgi-bin/fulltext/122592330/PDFSTART
2.Cluett ER, Burns E. Immersion in water in labour and birth. Cochrane Database of Systematic Reviews 2009, Issue 2. DOI: 10.1002/14651858.CD000111.pub3.http://www.mrw.interscience.wiley.com/cochrane/clsysrev/articles/CD000111/frame.html
3.Nikodem C, Hofmeyr GJ, Nolte AGW, de Jager M. The effects of water on birth: a randomized controlled trial. Proceedings of the 14th Conference on Priorities in Perinatal Care in South Africa; 1995 March 7-10; South Africa. 1995:163-6.
4.Woodward J, Kelly SM. A pilot study for a randomised controlled trial of waterbirth versus land birth. BJOG: an international journal of obstetrics and gynaecology 2004; 111: 537-45. http://www3.interscience.wiley.com/cgi-bin/fulltext/118813598/PDFSTART
5.Chaichian S, Akhlaghi A, Rousta F, Safavi M. Experience of water birth delivery in Iran. Arch Iran Med 2009; 12: 468-71. http://www.ams.ac.ir/AIM/NEWPUB/09/12/5/007.pdf
6.Oxford Centre for Evidence-based Medicine - Levels of Evidence (March 2009).http://www.cebm.net/index.aspx?o=1025
7.Batton DG, Blackmon LR, Adamkin DH, Bell EF, Denson SE, Engle WA, Martin GI, Stark AR, Barrington KJ, Raju TN, Riley L, Tomashek KM, Wallman C, Couto J; Committee on Fetus and Newborn, 2004-2005. Underwater births. Pediatrics 2005; 115: 1413-4.http://pediatrics.aappublications.org/cgi/pmidlookup?view=long&pmid=15867054
8.Mammas IN, Thiagarajan P. Water aspiration syndrome at birth - report of two cases. J Matern Fetal Neonatal Med 2009; 22: 365-7.http://informahealthcare.com/doi/pdf/10.1080/14767050802556067
9.Geissbuehler V, Stein S, Eberhard J. Waterbirths compared with landbirths: an observational study of nine years. J Perinat Med 2004; 32: 308-14.http://www.reference-global.com/doi/pdfplus/10.1515/JPM.2004.057
10.Eberhard J, Stein S, Geissbuehler V. Experience of pain and analgesia with water and land births. J Psychosom Obstet Gynaecol 2005; 26: 127-33.https://commerce.metapress.com/content/16441n2545k90228/resource-secured/?target=fulltext.pdf&sid=zb3zrqbulif0nhrroekunt55&sh=www.springerlink.com
11.Thoeni A, Zech N, Moroder L, Ploner F. Review of 1600 water births. Does water birth increase the risk of neonatal infection? J Matern Fetal Neonatal Med 2005; 17:357-61.http://informahealthcare.com/doi/pdf/10.1080/14767050500140388
12.Thöni A., Zech N., Moroder L. Water birth and neonatal infections. Experience with 1575 deliveries in water. Minerva Ginecol 2005; 57: 199-206.http://www.minervamedica.it/en/journals/minerva-ginecologica/article.php?cod=R09Y2005N02A0199&acquista=1
13.Thöni A, Zech N, Ploner F. Gebären im Wasser: Erfahrung nach 1825 Wassergeburten. Gynakol Geburtshilfliche Rundsch 2007; 47: 76-80.http://content.karger.com/
14.Zanetti-Daellenbach RA, Tschudin S, Zhong XY, Holzgreve W, Lapaire O, Hösli I. Maternal and neonatal infections and obstetrical outcome in water birth. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol 2007; 134: 37-43.http://www.ejog.org/article/S0301-2115%2806%2900514-8/pdf
15.Burns E, Kitzinger S. Midwifery Guidelines for the use of water in Labour. Oxford Brookes University, 2nd ed. 2005.http://www.sheilakitzinger.com/WaterBirth.htm#Midwifery%20Guidelines
16.Hermansen CL, Lorah KN. Respiratory distress in the newborn. Am Fam Physician 2007; 76: 987-94.http://www.aafp.org/afp/2007/1001/p987.html
18.World Health Organization. IMPAC Integrated Management of Pregnancy and Childbirth. Managing complications in pregnancy and childbirth: a guide for midwives and doctors. Geneva. WHO, 2000.http://www.who.int/making_pregnancy_safer/publications/archived_publications/mcpc.pdf

29 de out de 2010

Diferença entre gêmeos idênticos e fraternos



A descoberta de uma gestação gemelar é uma grande surpresa para todos. E entre tantas expectativas – como será a gestação, o parto, cuidar de dois bebês – tenho certeza que surge também uma curiosidade: serão gêmeos idênticos ou fraternos (não-idênticos)?

A resposta para esta pergunta poderá ser obtida em um exame de ultrassonografia, no qual se observará a quantidade de córions (membrana protetora por fora do âmnio) e de âmnios (membrana amniótica), que variam dependendo do tipo de fecundação que ocorreu. Mas, nem sempre será possível responder com certeza. Veja por que:


Gêmeos Monozigóticos ou Idênticos

O termo monozigótico significa que só houve uma fecundação, isto é, um único óvulo foi fecundado por um único espermatozóide. Porém, esse zigoto (célula-ovo ou óvulo fecundado) sofre uma divisão formando dois zigotos iguais, inclusive com o mesmo DNA.

Se essa divisão acontecer até o 4º dia haverá placentação dicoriônica (dois córions) e diamniótica (dois âmnios).

Se o zigoto se dividir entre o 5º e o 8º dia, a placentação será monocoriônica (um córion) e diamniótica (dois âmnios).

Se a divisão for até o 12º dia, ocorrerá placentação monocoriônica (um córion) e monoamniótica (um âmnio).

Caso a divisão ocorra após o 13º dia, há grande risco de gêmeos conjugados (siameses).


Gêmeos Dizigóticos ou Fraternos

Denomina-se dizigótico quando ocorrem duas fecundações, isto é, dois óvulos são liberados durante a ovulação e fecundados por dois espermatozóides diferentes. Forma-se, assim, dois zigotos distintos, cada um com seu próprio DNA e desenvolvimento em separado. Logo, haverá dois córions (dicoriônico) e dois âmnios (diamniótico). Poderá, ainda, ocorrer uma fusão das duas placentas, porém, os córions e âmnios permanecem separados.


Deste modo, a presença de um único córion ou um único âmnio confirma que são gêmeos idênticos. Porém, havendo dois córions e dois âmnios não se pode afirmar nada, aí, só resta esperar nascer!

24 de out de 2010

Parto em casa é seguro


Resposta da Dra. Melania Amorim¹ ao artigo “Dar à luz na própria residência pode representar sérios riscos”, ambos publicados no Guia do Bebê:

Gisele Bündchen em dois atos: grávida e maternando

“Li com atenção a interessante matéria do Guia do Bebê sobre Parto em Casa. Efetivamente, a recente notícia de que o parto da modelo Gisele Bündchen foi assistido nos Estados Unidos em sua própria residência, dentro da banheira, teve grande repercussão na mídia e despertou grande interesse em diversas mulheres, além de debate por diversas categorias profissionais. Entretanto, mesmo bem preparada, a matéria peca por apresentar apenas o ponto de vista de uma única obstetra, sem considerar a visão de diversos outros profissionais que podem participar da assistência ao parto e, sobretudo, sem analisar a opinião das mulheres. Como obstetra, pesquisadora e integrante do Movimento de Humanização do Parto no Brasil, não poderia deixar de contrapor a este ponto de vista, digamos, “oficial”, por refletir a opinião de grande parte dos médicos-obstetras em nosso País, considerações baseadas não em “achismos” ou receios, mas em evidências científicas.

O parto em casa, conquanto seja uma modalidade ainda pouco freqüente no Brasil, representa uma realidade dentro do modelo obstétrico de diversos outros países, como a Holanda, onde 40% dos partos são assistidos em domicílio, dentro do Sistema de Saúde. Mas vários outros países europeus e até os EUA contam com estatísticas confiáveis pertinentes aos partos atendidos em casa, e é impossível falar em RISCOS ou SEGURANÇA sem considerar os resultados dos diversos estudos já publicados sobre o tema. Em 2005, chamou a atenção a publicação de um interessante estudo analisando os desfechos de partos domiciliares assistidos por parteiras na América do Norte: “Outcomes of planned home births with certified professional midwives: large prospective study in North America” [http://bmj.bmjjournals.com/cgi/content/full/330/7505/1416?ehom]. O estudo incluiu 5418 mulheres. A taxa de transferência para hospital foi de 12%, com uma taxa de cesariana de 8, 3% em primíparas e 1,6% em multíparas. A freqüência de intervenções foi muito baixa, correspondendo a 4,7% de analgesia peridural, 2,1% de episiotomias, 1% de fórceps, 0,6% de vácuo-extrações e uma taxa global de 3,7% de cesarianas. A taxa de mortalidade perinatal (intraparto e neonatal) foi de 1,7 por 1.000, semelhante à observada em partos de baixo risco atendidos em ambiente hospitalar. Não houve mortes maternas. O grau de satisfação foi elevado (97% das mães avaliadas se declararam muito satisfeitas). A conclusão deste estudo foi que os partos domiciliares assistidos por parteiras têm os mesmos resultados perinatais que os partos hospitalares de baixo risco, com uma freqüência bem mais baixa de intervenções médicas. Entretanto, alguns críticos comentaram que o número de casos envolvidos seria insuficiente para determinar a segurança do parto domiciliar em termos de mortalidade materna e perinatal.

Seguiram-se vários outros estudos, publicados em diversas regiões do mundo, comparando a morbidade e a mortalidade tanto materna como perinatal entre partos domiciliares e hospitalares. A conclusão geral é que o parto domiciliar NÃO envolve mais riscos para mães e seus bebês, e cursa com vantagens diversas, relacionadas sobretudo à expressiva redução de intervenções e procedimentos. Partos assistidos em casa têm menor risco de episiotomia, de analgesia de parto, de uso de fórceps ou vácuo-extrator, de indicação de cesárea e a taxa de transferência hospitalar fica em torno de 12%. Destaca-se ainda o conforto e a satisfação das usuárias, que vivenciam uma experiência única e transformadora em seu próprio lar. O estudo mais recente publicado no British Journal of Obstetrics and Gynecology (2009) analisou a morbimortalidade perinatal em uma impressionante coorte de 529.688 partos domiciliares ou hospitalares planejados em gestantes de baixo-risco: “Perinatal mortality and morbidity in a nationwide cohort of 529,688 low-risk planned home and hospital births” [http://www3.interscience.wiley.com/journal/122323202/abstract?CRETRY=1&SRETRY=0]. Nesse estudo, mais de 300.000 mulheres planejaram dar à luz em casa enquanto pouco mais de 160.000 tinham a intenção de dar à luz em hospital. Não houve diferenças significativas entre partos domiciliares e hospitalares planejados em relação ao risco de morte intraparto (0,69% VS. 1,37%), morte neonatal precoce (0,78% vs. 1,27% e admissão em unidade de cuidados intensivos (0,86% VS. 1,16%). O estudo conclui que um parto domiciliar planejado não aumenta os riscos de mortalidade perinatal e morbidade perinatal grave entre mulheres de baixo-risco, desde que o sistema de saúde facilite esta opção através da disponibilidade de parteiras treinadas e um bom sistema de referência e transporte.

Parteiras treinadas ou midwives, em diversos países, são aquelas profissionais que cursam em nível superior o curso de Obstetrícia e são treinadas para atender partos de baixo-risco e, ao mesmo tempo, desenvolvem habilidades específicas para identificar os casos de alto-risco, providenciar suporte básico de vida em emergências, tratar potenciais complicações e referenciar ao hospital, quando necessário. Essas profissionais, como a que atendeu Gisele Bündchen, estão aptas para prestar o atendimento à mãe durante todo o parto, bem como para assistir o bebê imediatamente após o nascimento e nas primeiras 24 horas de vida. Embora não haja necessidade de equipamentos sofisticados ou de UTI à porta da casa da parturiente, o material básico de reanimação neonatal é providenciado pelas parteiras certificadas. Parteiras também podem atender em hospital, de forma independente ou associadas co m médicos. Uma revisão sistemática recente encontra-se disponível na Biblioteca Cochrane com o título de “Midwife-led versus other models of care for childbearing women” [http://www.cochrane.org/reviews/en/ab004667.html]. Esta revisão demonstra que um modelo de cuidado com parteiras associa-se com vários benefícios para mães e bebês, sem efeitos adversos identificáveis. Os principais benefícios são redução de analgesia de parto, menor número de episiotomias e partos instrumentais, maior chance de a mulher ser atendida durante o parto por uma parteira já conhecida, maior sensação de manter o controle durante o trabalho de parto, maior chance de ter um parto vaginal espontâneo e de iniciar o aleitamento materno. A revisão conclui que se deveria oferecer à maioria das mulheres (gestantes de baixo-risco) a opção de ter gravidez e parto assistidos por parteiras.

Em resumo, as evidências científicas disponíveis corroboram a segurança e os efeitos benéficos do parto domiciliar. Apenas criticar e apontar possíveis complicações, sem comprovar as críticas com evidências bem documentadas, publicadas em revistas de forte impacto, não pode ser mais aceito em um momento da história em que os cuidados de saúde devem se respaldar não apenas na opinião do profissional, mas, ao contrário, devem se embasar em evidências científicas sólidas. Este é o preceito básico do que se convencionou chamar de “Saúde Baseada em Evidências”, correspondendo à integração da experiência clínica individual com as melhores evidências correntemente disponíveis e com as características e expectativas dos pacientes. Embora iniciado na Medicina (“Medicina Baseada em Evidências”) esse novo paradigma estende-se a todas as áreas e sub-áreas da Saúde.”

¹ Melania Amorim é Médica formada pela UFPB com Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia pelo IMIP, Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela FEBRASGO, Mestre em Saúde Materno-Infantil pelo IMIP, Doutora em Tocoginecologia pela UNICAMP, Pós-doutora em Tocoginecologia pela UNICAMP, Pós-doutora em Saúde Reprodutiva pela OMS, Professora de Ginecologia e Obstetrícia da UFCG, Professora da Pós-Graduação em Saúde Materno-Infantil do IMIP, Colaboradora da OMS e Revisora da Biblioteca Cochrane.
Fotos: Patrick Demarchelier para Vogue

22 de out de 2010

Como uma gestante com 10cm de dilatação caiu numa cesárea (desnecessária)


Hoje trago para vocês o relato do parto da Inês Baylão de Morais Monson, uma doula de Curitiba, que tem um blog chamado “Diário de uma Doula”. Vale a pena passar lá e prestigiar o trabalho dela!

Esse relato me tocou profundamente pois confirmou uma convicção que tenho pra mim: grande parte dos médicos obstetras desse país não sabem dar assistência ao parto vaginal. Por inexperiência e/ou despreparo eles não distinguem o limiar entre o que é fisiológico e aceitável durante o parto, e quando é realmente necessária uma intervenção.


As dores do meu parto



Às vésperas do aniversário de um ano de minha filha, decidi escrever sobre esse momento tão significativo de nossas vidas e que ainda me provoca lágrimas nos olhos: o parto.

Desde que descobri que estava grávida decidi que queria parto normal. Uma decisão que fugia totalmente ao meu ambiente e ciclo de convívio. Nascida de cersariana, beneficiária de um plano de saúde particular e cercada de mulheres que nada sabem sobre dar a luz a um filho, iniciei uma busca, quase uma investigação, sobre o que é o parto normal (natural, humanizado, ativo.....) e o que pode ser feito para favorecer esse acontecimento.

..... e então se transcorreram os nove meses mais maravilhosos de minha vida....

Minha gestação foi o que se considera “tranqüila”. Aos poucos fui incorporando à minha rotina aquilo que ia descobrindo ser favorável ao parto normal. Comecei com as aulas de yoga para gestante e estes eram meus momentos preferidos, onde eu tinha o apoio e a orientação que queria , onde era encorajada a acreditar na minha capacidade de mulher de parir.

Li alguns livros sobre o tema e visitei alguns sites, poucos na verdade e superficialmente, porque nunca fui muito paciente com a internet.

A cada consulta com minha obstetra conversava sobre suas convicções de parto normal, tirava algumas dúvidas e falava sobre como eu queria que fosse o meu parto. Ela via que eu estava informada e bem decidida, e se dizia favorável ao parto normal sem muitas intervenções e que eu era uma gestante tranqüila (na verdade um casal grávido tranqüilo, porque o Márcio, meu marido, sempre me acompanhava).

Eu estava realmente muito feliz com a minha gestação e com a minha decisão. Acredito que a oportunidade de parir é uma benção de Deus a nós mulheres e que a natureza não iria errar tanto em nos fazer sofrer para poder gerarmos uma vida. Realmente acredito que tudo depende da forma como você encara as coisas. Lembro que minha professora de yoga fazia questão de dizer que “não necessariamente há dor durante uma contração e caso haja que ela seja bem vinda pois significa que seu bebê está cada vez mais perto de você”.

Curti muito minha gestação e conversava muito com minha filha, falava a ela das minhas intenções de parto normal e de como ela seria bem recebida quando decidisse chegar. Acredito que para o bebê o nascimento é um momento muito difícil, infinitamente mais difícil do que para nós, mães que estamos dando à luz. Isso, não apenas no que se refere ao aspecto físico, mas e principalmente, no que se refere ao aspecto espiritual daquela nova vida. Isso também me levou a querer não apenas um parto normal, mas que minha filha pudesse ser recebida e tocada por nós (pais) quando nascesse, que não fosse tudo feito de forma mecânica e invasiva.....

Bem, então quando eu estava com 38 semanas minha médica soltou um “se você fosse fazer uma cesariana já poderíamos marcar para esta semana”. Aquilo soou muito mal aos meus ouvidos, mas..... tentei não dar importância. Ela sabia que eu QUERIA e (só queria) parto normal.

A partir deste momento todas as pessoas que te encontram já te olham com cara de “o que essa criatura faz com essa barriga deste tamanho?” Minha barriga estava muito grande, mas muito grande e eu tinha engordado apenas 11kg! Você já começa a se sentir muito grande, mas eu estava curtindo, ADORAVA e estava disposta a esperar o tempo que fosse necessário.

E foi necessário esperar bastante... Nas consultas, minha médica começou a dizer que o bebê estava encaixado mas não tinha descido, estava alto. Minha professora de yoga falava para eu conversar com minha filha e incentivá-la a descer e eu sempre fazia isso nos momentos de relaxamento, dizia que eu estava pronta para recebê-la.

Fechamos as 39 semanas e nada... tudo na mesma!

A esta altura minha obstetra cogitou a possibilidade de fazer uma cesária, eu perguntei por quê?? Eu estava ótima e o bebê também, tudo estava bem em todos os exames. Lembro dela perguntar porque eu não queria fazer cesariana, se tinha medo. Eu respondi que para mim o problema não era fazer uma cesariana, que não tinha medo de cirurgia. Para mim o problema era não fazer o parto normal, não passar por esse momento que eu considerava maravilhoso e único, algo só meu, que ninguém poderia vivenciar no meu lugar.

Bem, e nessa consulta ela viu que eu não era apenas mais uma querendo parto normal. Eu não estava muito disposta a negociar. Então ela disse que eu estava muito tranqüila e bem informada e que neste caso poderíamos esperar mais uma semana.

Fechamos 40 semanas e ...NADA....

Eu continuava ótima e o bebê também. A essa altura toda minha família e a do meu marido, que não moram em Curitiba, já estava aqui e acho que apenas isso me pressionava um pouco. Todas aquelas pessoas aqui, que vieram de tão longe, já estavam ha praticamente 10 dias e nem sinal de o bebê nascer.

Então tivemos uma consulta e a médica quis marcar a cesariana, e eu comecei a chorar, era uma quinta-feira. Acho que ela se impressionou com minha reação e também ficou emocionada, disse que então esperaríamos até a próxima terça-feira e aí, se não mudasse o cenário marcaríamos a cirurgia.

UFA!!! Ganhamos alguns dias!!!

Quando essa consulta terminou passei a viver uma constante espera. Esperava que a qualquer momento uma dor diferente viesse, que alguma coisa diferente escorresse entre minhas pernas, mas tudo era tão tranqüilo, tão normal.... nenhum desconforto a não ser o da pressão de ter que acontecer alguma coisa até terça-feira.

E quando amanheceu segunda-feira para minha surpresa não tinha sentido NADA de diferente. Chamei meu marido para conversar e disse que não queria marcar cesariana nenhuma, que sabíamos que nossa filha estava bem e que poderíamos esperar até 42 semanas. Pedi que ele ligasse para a médica e falasse que não iria marcar nada para terça-feira. Ele fez isso! Ela então pediu que mesmo não sendo para fazer a cirurgia fôssemos no hospital no dia seguinte para fazermos um exame mais detalhado do bebê.

Lembro de naquela segunda feira ter feito acupuntura e pedi ao meu acupunturista para apenas relaxar pois estava estressada com aquela pressão de tem que nascer.....

E então para minha surpresa após o almoço comecei a sentir uma coisa diferente. Pensei “hummm....isso está parecendo novo... nunca senti antes, então acho que pode ser um bom sinal”. Fiquei bem quieta, não falei para ninguém, mas pedi ao meu marido que não voltasse para o escritório e ficasse comigo. Durante a tarde aquilo, que não quero chamar de dor, pois para mim era algo tão desejado, começou a ficar mais forte e quando vinha tinha que ficar de pé e andar. Comentei então com meu marido, assim com muita naturalidade...”acho que comecei a sentir as tais contrações” e pedi que ele também ficasse bem quietinho. Toda a nossa família estava conosco e eu não queria criar falsas expectativas em ninguém.

Naquele dia todos tinham combinado de ir assistir ao Auto de Natal, uma encenação do nascimento de Jesus muito bonita, e então quando deu 19h meu marido foi levá-los e eu fiquei sozinha em casa. Nesta hora percebi que realmente o que eu sentia só podia ser contração. Quando aquilo vinha eu precisa para, me agachar e me concentrar totalmente, passou a ser muito intenso, e eu estava MARAVILHADA!!!!! Quando o Márcio chegou começamos a marcar os minutos e então vimos que elas estavam com intervalos regulares e rapidamente se intensificando.

Quando deu 21h30 ele falou “vamos para o hospital” eu disse que não, que iríamos bater lá e voltar eu estava bem ainda e a notícia que tinha era de que mulher em trabalho de parto urra de dor. Ele insistiu pois as contrações estavam de 7 em 7 minutos. Então tá, peguei minha bolsa (só a bolsa mesmo pois tinha certeza de que ia bater no hospital e voltar) e nesse meio tempo nossa família voltou e minha mãe foi conosco.

No carro eu pensava “ooobbbbaaaa a noite vai ser animada, finalmente chegou a hora”! Sabia que estava em trabalho de parto, mas estava bem e feliz, preparada para voltar para casa e encarar horas de caminhadas, respirações, duchas, massagens... tudo aquilo que sonhava fazer por mim e meu bebê.

Quando chegamos ao hospital o médico de plantão me olhou e disse para meu marido “acho que ela ainda não está em trabalho de parto, pois está caminhando e conversando normalmente, deve ser o que chamamos de falso trabalho de parto, mas vamos examinar”.

Para nossa surpresa eu estava com 5 de dilatação e ele disse para já ficar internada. Ligou para minha médica, o que era procedimento de rotina, e disse algo que ficou gravado em mim “mas o bebe ainda está alto”. Tudo bem, eu pensei, eu estou bem e agüento até ele descer.

O Márcio foi cuidar da papelada da internação e minha mãe ficou comigo. Sempre que vinham as contrações eu fazia as respirações que treinei nas aulas de yoga e estava bem tranqüila.

Então o Márcio chegou com a enfermeira e uma cadeira de rodas para subirmos ao centro obstétrico. “Para que essa cadeira?” eu pensei, e disse a ela que iria caminhando. Me sentia ótima, confiante, forte, disposta. Não é que eu não sentisse dor, é que eu estava tão feliz que queria participar ativamente de tudo.

Então subimos todos, a enfermeira, minha mãe, o Márcio e eu. Quando chegamos na porta do centro obstétrico a enfermeira disse que o Márcio não poderia entrar e eu fiquei irritadíssima pois o combinado era que ele entraria comigo. Eram 11h da noite, não tinha mais ninguém naquele hospital e ela veio com uma conversa de que a médica teria que autorizar porque a presença dele poderia constranger outras gestantes..... Ahhhh aí eu já me armei toda para a briga, mas antes que pudesse falar o Márcio percebeu tudo e falou para eu entrar que ele ligaria para a Dra e logo entraria.

Realmente esse pessoal de hospital não entende nada de parir um filho.... Todo o encanto e ternura deste momento começam a sumir quando você se depara com aquele ambiente hospitalar, aquela camisolinha ridícula que só mesmo com anestesia geral para você usar, e aquelas pessoas te olhando sem o menor acolhimento, querendo te dizer tudo o que você deve fazer, como se você fosse um ser sem vontade e sem desejos.

A partir daquele momento me deparei com a frieza com que o sistema de saúde brasileiro trata o nascimento de um filho e fiquei sozinha naquela sala horrível, com uma roupa ridícula e uma touca mais ridícula ainda. Mas tudo bem, eu pensei, minha querida professora de yoga tinha dito que isso iria acontecer: “Querida, esteja preparada para ficar sozinha” e então comecei a conversar com minha filha, caminhava e dizia a ela que viesse em paz pois a mamãe estava pronta para recebê-la, que tivesse coragem pois iríamos ajudá-la no que fosse preciso, que era hora de trabalharmos juntas! E assim fiquei até que apareceu uma enfermeira e perguntou se eu estava bem, disse que era melhor eu deitar....... Ai ai ai, elas realmente não conseguem nos ajudar muito!!!!

Pedi para pegar minha meia porque não ia sentar e o chão estava gelado para ficar andando com aquele sapatinho de TNT (ridículo!!!). Ela disse que não podia, eu insisti, ela disse que não podia... eu insisti DE NOVO. Então fomos até a salinha onde ficaram minhas roupas e pude ver minha mãe, o Márcio e a Dra conversando, ela tinha acabado de chegar. Dei um sorriso e sinalizei que estava tudo bem, e gritei que era para o Márcio entrar!!!

Quando eles chegaram à super sala de parto eu continuava andando e respirando, andando, respirando e conversando com minha filha.... já era quase meia noite e ela fez o exame de toque... 7cm de dilatação mas o bebê ainda estava alto!!!

Então ela sugeriu que eu fosse para a ducha, lá fomos nós. O Márcio ficou lá, o tempo todo comigo, foi bem relaxante e alivia muito a dor, mas teve uma hora que pensei “Meu Deus, quanta água, que desperdício..... acho que vou sair....” Aí logo a Dra chegou, então me sequei e me deitei de novo para mais um exame..... 8cm. Pedi a ela para andar mais um pouco, é extremamente doloroso ficar deitada ou parada, ela disse que tudo bem, a dilatação estava indo super bem, mas o bebê ainda estava alto e o trabalho de parto ainda poderia demorar umas 4h (isso para mim não era nenhum problema!!!).

Minha filha pode demorar o tanto que quiser, eu pensava, eu estou preparada! E ali ficamos eu e o Márcio, não tínhamos as músicas nem os óleos que eu havia escolhido, muito menos uma luz amena e um ambiente tranqüilo como imaginei, mas tudo bem, nossa filha estava chegando, nós estávamos juntos e bem, e isso fazia o momento mágico.

Lá vem a Dra de novo para fazer outro toque (para que tocar tanto, né?!?!), 9cm de dilatação só que a bolsa não estourou e o bebê continua alto. Ela então mede os batimentos cardíacos e dá baixo (não lembro quanto), mas eu estava tendo contração!!!! E lembro de ter lido que durante a contração o batimento do bebe diminui!!!! Poxa, será que ela não sabe disso!!! Então falei, e ela disse que estava muito baixo mesmo para ser durante uma contração e que minha filha deveria estar em sofrimento.... Mas insisti para ela medir de novo e é óbvio que ela mediu e deu normal!!!!!

Lembro de nesse momento ela começar a se dirigir mais ao Márcio para explicar o que estava acontecendo. Eu estava muito concentrada em minhas respirações e convicta de que tudo estava bem, era só deixar a natureza seguir seu fluxo. Mas ela veio com uma história de que a diferença entre a medição durante e fora de uma contração não poderia ser tão grande...... e que seria melhor fazer uma cesária.

Lembro que senti uma profunda frustração e me dei conta de que ela não tinha noção do que significava para mim aquele momento. Tá, eu falei, não dá para a gente tentar nada antes, eu não quero uma cesariana!!!! Dentro de mim algo dizia que a Laís (minha filha) estava bem, nós estávamos bem!!!!!.

Então ela quis fazer um outro toque, disse que já estava totalmente dilatada, o colo estava ótimo, que estava tocando na membrana e poderia até romper a bolsa... Só que enquanto ela me examinava e falava, na verdade ela já estava era rompendo a minha bolsa..... Fiquei muito chateada com aquilo, mas se era a forma encontrada para tentarmos evitar uma cirurgia tudo bem.

Bem, neste momento, comecei a sentir as verdadeiras dores do meu parto. Quando ela rompeu a bolsa, senti a dor de não ser respeitada. Não estava convencida de que aquele procedimento era necessário. Meu marido me chama de teimosa, mas eu tinha estudado e sentia que estava tudo bem. Poxa, a barriga é minha e o bebê está lá dentro, será que minha intuição não conta???. Não é que eu queira saber mais que a médica, mas eu também sei alguma coisa e confio nisso, mas isso não é levado em consideração e nem respeitado. Sabia que um parto deve ter o mínimo de intervenções possíveis e aquela era uma tremenda de uma intervenção!!! Romper a bolsa!!!!

E então, quando a bolsa é rompida o líquido está um pouco escuro, era mecônio, o bebê tinha feito cocô. Pronto, dá para imaginar como as coisas transcorreram a partir daí. A médica chamou meu marido, mostrou o líquido e disse que o bebê estava em sofrimento e precisávamos fazer uma cesária urgente!

Só um pouquinho doutora,eu ainda tive a capacidade de dizer, eu sei que o mecônio isoladamente não significa muita coisa e ainda existem graduações para essa tonalidade escura do líquido e pelo que eu posso ver ele não está tão escuro assim.

Nessa hora ela, a enfermeira que estava na sala e meu marido me olharam com uma cara assustada como se eu quisesse matar minha filha.... E aí aquelas dores (da falta de respeito) começaram a ficar cada vez mais intensas e se somaram a outra dor, a da frustração. A Dra se defendeu, disse que o que eu falei não era bem assim e que precisávamos fazer a cirurgia urgente.... Meu marido veio para perto de mim e me disse que eu tinha tentado tudo que podia, mas as coisas aconteceram assim, agora era hora de aceitar e confiar na médica.

Nossa, quanta, mas quanta dor eu senti nessa hora. Uma dor desesperadora!!! Me sentia impotente, desrespeitada, derrotada, incapaz, comecei a chorar sem parar, me sentia uma fracassada!!! Eles quiseram me levar deitada para a sala de cirurgia.... OPA... sai pra lá que eu não estou doente, eu pensei. Me levantei e quis ir andando, e chorando, chorando muito!!! Meu marido estava comigo e só pedia para eu ficar calma, que eu tinha feito tudo o que podia, que eu estava de parabéns, que era para eu ficar feliz pois nossa filha estava chegando....

Como eu gostaria de me sentir assim, mas infelizmente não era isso que sentia! Sentia que me roubavam uma oportunidade abençoada de participar ativamente da chegada de minha filha ao mundo e isso me doía muito, mas muito mesmo!! Eles todos me roubavam descaradamente algo tão valioso, impossível de ser mensurado, e eu ainda saía como a vilã da história, todos me olhavam com uma condenação no olhar (ou eu que me sentia condenada, já não sei.....)

Na hora de entrar no centro cirúrgico o anestesista ( meu Deus!!! Eu achei que jamais fosse precisar dele) falou para o Márcio esperar do lado de fora. AHHHH NÃO, ele entra se não eu não vou!!! Espera aí, vocês me roubam um momento mágico e único em minha vida e agora ainda querem que meu marido não participe!!! Aquelas pessoas todas me assustavam, tratavam tudo de forma tão impessoal, conversavam entre si como se nós (eu, minha filha e meu marido) fôssemos as figuras menos importantes naquele cenário.

Então empaquei ali na porta com meu marido e comecei a chorar mais forte ainda, sentindo aquela dor estranha, para a qual eu não estava preparada. Não havia alívio para aquela dor que sentia, não tinha posição, respiração ou recurso que ajudasse, era desesperador. E o anestesista me chamando, dizendo que tinha que ser rápido para eu entrar logo, mas eu não quero, eu não quero entrar aí, que droga, será que ninguém pode me dar um tempo, pelo menos para eu digerir essa idéia!

Aiiiii, mais uma vez aquela dor de não ser respeitada, ninguém se compadecia do meu sofrimento. Pode parecer exagero falar assim, mas não é. Eu realmente sofria muito naquele momento e ninguém foi acolhedor, ninguém parecia me entender ou querer me entender, todos só queriam correr e fazer tudo mecanicamente como já estão tão habituados!

Meu marido tentava me animar e me consolar, mas acho que ele também estava com medo e por isso também tinha pressa. Pressa que eu aceitasse logo entrar naquela sala com aquele anestesista e fazer logo essa cirurgia para que nossa filha nascesse logo e tudo terminasse logo.

Fui... me sentia derrotada, vencida, humilhada, era uma dor horrível. Quando entrei naquele centro cirúrgico todo e qualquer resquício de magia, beleza e serenidade que imagino que deva envolver um nascimento desapareceram!!! Tive que tomar anestesia, a maior de todas as dores pois era a sinalização mais evidente de que a partir daquele momento eu não significava e não podia mais nada!!! Dar a luz a minha filha já não me pertencia mais! Eu era uma mera máquina orgânica a qual seria aberta e de onde eles retiraram uma outra máquina, só que uma miniaturazinha!

Para a coisa ficar ainda menos humanizada eles sobem um pano na nossa cara e te mandam ficar com os braços estendidos (ainda me embrulha o estômago de lembrar)! É tanta luz, tanto pano verde, tanta gente que você nunca viu, tanta conversas entre eles, tanta impessoalidade, tanta falta de respeito, tanto desconhecimento do significado no nascimento! Minha vontade era gritar, mas eu já não conseguia mais, e então senti a dor da impotência. “Se pudesse sairia correndo e ganharia minha filha sozinha, no meio do mato”, eu pensava. Sozinha nada!!!! Nenhuma mulher está sozinha na hora de parir, todas as forças da Natureza estão ao seu lado, há uma falange de bons espíritos a auxiliá-la, tudo conspira a seu favor, mas infelizmente nosso sistema de saúde não comunga desta opinião.

Só recobrei um pouco de paz quando vi o Márcio se aproximar de mim, deu um segundo e ele falou, NASCEU. Ai meu Deus, como eu chorei... era um misto de vitória com derrota, de alegria com tristeza, de mágico com mecânico!!! Trouxeram nossa filha para nós e eu não conseguia falar nada só chorar, chorar e chorar. Meu marido então não tirou mais a mão dela, eu não conseguia segurá-la, levá-la ao meu peito e dar-lhe de mamar como tinha imaginado. Minha filha, concebida e gerada por mim, mas que não pude vê-la chegando ao mundo, nem meu marido ajudando a cortar o cordão como era meu desejo e isso ainda me doía muito, mas tinha também a gratidão de saber que ela estava ali.

Foi tudo tão mais rápido e doloroso do que eu tinha imaginado. É muito difícil você falar sobre isso porque todos usam o jargão “o importante é que o bebê está bem, ela está aí, viva, linda, saudável, é isso que importa”. Depois de passar por toda essa frustração você ainda tem que se contentar com essa explicação!!! Parece que continuar a se indignar e questionar é ingratidão com a vida que me deu uma filha tão maravilhosa. Mais uma vez o sistema de saúde e a nossa sociedade te levam a crer que você tem que aceitar, que é assim mesmo, parto normal é muito difícil, quase impossível de acontecer, é muito arriscado e perigoso.... Bem, tudo isso causa uma tremenda confusão emocional em nós mães, que já não sabemos mais o que sentir ou como pensar. Não é à toa que demorei quase um ano para conseguir falar abertamente sobre isso.

Continuo a acreditar que meu parto poderia ter sido normal e que minha filha estava bem, prova é que a tal nota que eles dão ao bebê quando nasce (APGAR) foi 9 e9. Dentro de toda a confusão de sentimentos que se apoderaram de mim a única coisa que não consegui sentir foi raiva da minha médica. Sei que ela fez o que pode, o que sabia o que conseguia fazer. Verdade seja dita, o problema é justamente esse, nossos médicos (salvo algumas exceções, que eu mesma ainda não conheço....) não sabem ajudar uma mulher a parir. Eles não aprenderam isso e nem são incentivados a tal. Eles não conseguem deixar que a natureza faça seu trabalho, que a mulher assuma o controle de seu corpo e que a vida surja de forma natural. Sou grata a minha médica por ter me tirado minha filha, mas não me contento mais com o que ela tem a me oferecer, nem ela, nem os outros médicos, nem as enfermeiras, nem os hospitais.

Hoje consigo dizer, ainda em voz baixa, que meu parto foi uma experiência dolorosa e traumática, mas nem por isso minha filha deixou de ser a coisa mais linda que aconteceu na minha vida! Fiz este relato, em primeiro lugar por mim, para me ajudar a superar essa cicatriz que ainda dói, e também para exemplificar às outras mulheres grávidas o quão árdua é a luta das que querem parir seus filhos. Que elas não se deixem iludir como eu, achando que seus médicos realmente são favoráveis ao parto normal e que os hospitais hoje estão preparados para isso. Que elas sejam fortes e decididas, que busquem se informar, que façam yoga, tenham uma doula e não precisem de hospitais para terem seus bebês.


O parto da Inês tinha tudo para ter sido vaginal e sem intervenções: gestação saudável de baixo risco e gestante preparada, informada e consciente de suas escolhas. Foi por água abaixo devido a uma assistência intraparto inadequada. Médica intervencionista (rompe a bolsa) fica insegura com presença de mecônio claro e indica uma cesárea.

Fica o aviso: muitos médicos ‘aceitam’ atender um parto vaginal, mas não sabem lidar com possíveis intercorrências, aí tudo é motivo pra uma cesárea!

21 de out de 2010

Parto Vaginal de Gêmeos


Dois lindos e inspiradores vídeos que rompem com vários mitos sobre o nascimento de gêmeos:

1º) são partos vaginais de gêmeos, o que é muito raro de se ver em nosso país.
2º) as duas mães tiveram cesáreas anteriores (VBAC), inclusive no segundo vídeo o parto dos gêmeos foi a menos de dois anos da última cesárea.
3º) ambos foram partos domiciliares acompanhados por parteiras (midwife) e não por médicos obstetras!





Isso nos faz refletir sobre a triste realidade da assistência ao parto no nosso país, tão cheia de mitos e inverdades que, infelizmente, estão arraigados na nossa cultura. Espero que cada vez mais mulheres percebam a verdade por trás da conveniência médica e da falsa sensação de segurança dos hospitais.

Para saber mais sobre parto vaginal de gêmeos clique aqui (em inglês).
E sobre VBAC clique aqui (em inglês).

19 de out de 2010

Como calcular a Data Provável do Parto (DPP) e a Idade Gestacional (IG)?



Essa é uma dúvida muito frequente das gestantes, pois muitas acreditam que se começa a contar a gravidez do dia da concepção. Ledo engano. Por convenção, os médicos do mundo inteiro utilizam o mesmo critério para saber a Idade Gestacional (IG) e este cálculo é feito a partir da Data da Última Menstruação (DUM). Como a gestação do ser humano dura em média 40 semanas, a Data Provável do Parto (DPP) é 40 semanas após a DUM. Para facilitar a vida e ninguém precisar ficar contando semanas num calendário, é feito o seguinte cálculo para a DPP:

- primeiro escreva a DUM num papel dessa forma: Dia / Mês / Ano.

- se a DUM for em janeiro, fevereiro ou março: some + 7 ao Dia, acrescente + 9 ao Mês e mantenha o mesmo Ano.
Ex: DUM = 15  /  02  /  2010
                   +7     +9        =
         DPP = 22 / 11 / 2010

- se a soma do Dia ultrapassar 30 ou 31 dependendo do mês, considere o Mês seguinte.
Ex: DUM = 27  /  03  /  2010
                   +7     +9        =
        DPP = 34 / 12 / 2010 considerar: dezembro é de 31 dias (34 – 31 = 3), o Mês seguinte a dezembro é janeiro (01), aí muda o Ano também, então DPP = 03 / 01 / 2011.

- se a DUM for de abril a dezembro: some + 7 ao Dia, diminua – 3 do Mês e acrescente + 1 ao Ano.
Ex: DUM = 12  /  07  /  2010
                   +7     -3       +1
         DPP = 19 / 04 / 2011

- se o Dia ultrapassar 30 ou 31 dependendo do mês (ou 28/29 em fevereiro), considere o Mês seguinte.
Ex: DUM = 25  /  05  /  2010
                   +7     -3       +1
         DPP = 32 / 02 / 2011 considerar: fevereiro é de 28 dias (32 – 28 = 4), o Mês seguinte a fevereiro é março (03), então DPP = 04 / 03 / 2011.

Cabe ressaltar que a DPP marca a 40ª semana, que é a média de duração da gestação humana, mas o parto não tem que ocorrer obrigatoriamente neste exato dia. Por isso, é mais sensato falar em período provável do parto que é considerado de duas semanas antes (ou – 14 dias) a duas semanas depois (ou + 14 dias) da DPP, ou seja, da 38ª a 42ª semana.

A Idade Gestacional corresponde à duração da gestação, isto é, o tempo em semanas completas e dias completos. Este cálculo também é feito a partir da DUM e serve tanto para saber o número de semanas de uma gestação ainda em curso, como para saber com quantas semanas ocorreu o parto. A IG é calculada da seguinte maneira:

- primeiro escreva a DUM num papel dessa forma: Dia / Mês.
- pule algumas linhas e escreva a data de hoje, se ainda estiver grávida, ou a data em que o parto ocorreu (o cálculo é igual para ambos).
- depois é preciso saber quantos dias tem cada Mês (Jan 31 / Fev 28 ou 29 / Mar 31 / Abr 30 / Mai 31 / Jun 30 / Jul 31 / Ago 31 / Set 30 / Out 31 / Nov 30 / Dez 31).
 - escreva quantos dias faltam para terminar o primeiro Mês, depois escreva os dias de cada Mês completos e por fim escreva os dias completados no último Mês. Some todos os dias e divida por 7; o resultado será o número de semanas completas e o resto será o número de dias (da semana incompleta).

Ex: gestação em curso com DUM = 15 / 06 / 2010
        DUM = 15 / Jun (Jun é de 30 dias, falta 15 dias para terminar o mês) = 15
        Jul = 31
        Ago = 31
        Set = 30
        Data de hoje = 18 / Out (já transcorreram 18 dias de Out) = 18
Soma = 15 + 31 + 31 + 30 + 18 = 125 dias
Divisão por 7 = 125 / 7 = 17 e restam 6, ou seja,  IG = 17 semanas e 6 dias.

Se a gestante não souber ou não conseguir precisar a DUM, a idade gestacional será calculada medindo a Altura do Fundo do Útero (AFU) e/ou o tamanho do feto pela Ultrassonografia (US). Contudo, os valores encontrados também serão aproximados, considerando-se sempre uma margem de erro de duas semanas para mais e para menos.


Espero ter ajudado! Qualquer dúvida é só perguntar, viu?!

17 de out de 2010

Amamentação parcial não traz imunidade igual à integral



Bebês alimentados exclusivamente com leite materno até os seis meses de idade ganham proteção extra contra infecções, dizem cientistas gregos. O efeito observado independe de fatores como acesso à saúde e programas de vacinação, eles explicam. Segundo os especialistas da Universidade de Creta, o segredo estaria na composição do leite materno. As conclusões do estudo, que envolveu pouco mais de 900 bebês vacinados, foram publicadas na revista científica Archives of Diseases in Childhood. A equipe ressalta, no entanto, que o benefício só ocorre quando o bebê é alimentado com leite da mãe apenas. Ou seja, acrescentar fórmulas ao leite materno não produz o mesmo efeito. Especialistas em todo o mundo já recomendam que bebês sejam alimentados somente com leite materno pelo menos durante os seis primeiros meses de vida.

Os pesquisadores gregos monitoraram a saúde de 926 bebês durante 12 meses, registrando quaisquer infecções ocorridas em seu primeiro ano de vida. Entre as infecções registradas estavam doenças respiratórias, do ouvido e candidíase oral (sapinho). Os recém-nascidos receberam todas as vacinas de rotina e tinham acesso a tratamentos de saúde de alto nível. Quase dois terços das mães amamentaram seus filhos durante o primeiro mês, mas o número caiu para menos de um quinto (menos de 20%) seis meses depois. Apenas 91 bebês foram alimentados exclusivamente com o leite da mãe durante os seis primeiros meses. Os pesquisadores constataram que esse grupo apresentou menos infecções comuns durante seu primeiro ano de vida do que os bebês que foram parcialmente amamentados ou não amamentados. E as infecções que os bebês contraíram foram menos severas, mesmo levando-se em conta outros fatores que podem influenciar os riscos de infecção, como número de irmãos e exposição à fumaça de cigarro. O pesquisador Emmanouil Galanakis e sua equipe disseram que a composição do leite materno explica os resultados do estudo. O leite materno contém anticorpos recebidos da mãe, assim como outros fatores imunológicos e nutricionais que ajudam o bebê a se defender de infecções. "As mães deveriam ser avisadas pelos profissionais de saúde de que, em adição a outros benefícios, a amamentação exclusiva ajuda a prevenir infrecções em bebês e diminui a frequência e severidade das infecções", os especialistas dizem.

Fonte: Folha