22 de out de 2010

Como uma gestante com 10cm de dilatação caiu numa cesárea (desnecessária)


Hoje trago para vocês o relato do parto da Inês Baylão de Morais Monson, uma doula de Curitiba, que tem um blog chamado “Diário de uma Doula”. Vale a pena passar lá e prestigiar o trabalho dela!

Esse relato me tocou profundamente pois confirmou uma convicção que tenho pra mim: grande parte dos médicos obstetras desse país não sabem dar assistência ao parto vaginal. Por inexperiência e/ou despreparo eles não distinguem o limiar entre o que é fisiológico e aceitável durante o parto, e quando é realmente necessária uma intervenção.


As dores do meu parto



Às vésperas do aniversário de um ano de minha filha, decidi escrever sobre esse momento tão significativo de nossas vidas e que ainda me provoca lágrimas nos olhos: o parto.

Desde que descobri que estava grávida decidi que queria parto normal. Uma decisão que fugia totalmente ao meu ambiente e ciclo de convívio. Nascida de cersariana, beneficiária de um plano de saúde particular e cercada de mulheres que nada sabem sobre dar a luz a um filho, iniciei uma busca, quase uma investigação, sobre o que é o parto normal (natural, humanizado, ativo.....) e o que pode ser feito para favorecer esse acontecimento.

..... e então se transcorreram os nove meses mais maravilhosos de minha vida....

Minha gestação foi o que se considera “tranqüila”. Aos poucos fui incorporando à minha rotina aquilo que ia descobrindo ser favorável ao parto normal. Comecei com as aulas de yoga para gestante e estes eram meus momentos preferidos, onde eu tinha o apoio e a orientação que queria , onde era encorajada a acreditar na minha capacidade de mulher de parir.

Li alguns livros sobre o tema e visitei alguns sites, poucos na verdade e superficialmente, porque nunca fui muito paciente com a internet.

A cada consulta com minha obstetra conversava sobre suas convicções de parto normal, tirava algumas dúvidas e falava sobre como eu queria que fosse o meu parto. Ela via que eu estava informada e bem decidida, e se dizia favorável ao parto normal sem muitas intervenções e que eu era uma gestante tranqüila (na verdade um casal grávido tranqüilo, porque o Márcio, meu marido, sempre me acompanhava).

Eu estava realmente muito feliz com a minha gestação e com a minha decisão. Acredito que a oportunidade de parir é uma benção de Deus a nós mulheres e que a natureza não iria errar tanto em nos fazer sofrer para poder gerarmos uma vida. Realmente acredito que tudo depende da forma como você encara as coisas. Lembro que minha professora de yoga fazia questão de dizer que “não necessariamente há dor durante uma contração e caso haja que ela seja bem vinda pois significa que seu bebê está cada vez mais perto de você”.

Curti muito minha gestação e conversava muito com minha filha, falava a ela das minhas intenções de parto normal e de como ela seria bem recebida quando decidisse chegar. Acredito que para o bebê o nascimento é um momento muito difícil, infinitamente mais difícil do que para nós, mães que estamos dando à luz. Isso, não apenas no que se refere ao aspecto físico, mas e principalmente, no que se refere ao aspecto espiritual daquela nova vida. Isso também me levou a querer não apenas um parto normal, mas que minha filha pudesse ser recebida e tocada por nós (pais) quando nascesse, que não fosse tudo feito de forma mecânica e invasiva.....

Bem, então quando eu estava com 38 semanas minha médica soltou um “se você fosse fazer uma cesariana já poderíamos marcar para esta semana”. Aquilo soou muito mal aos meus ouvidos, mas..... tentei não dar importância. Ela sabia que eu QUERIA e (só queria) parto normal.

A partir deste momento todas as pessoas que te encontram já te olham com cara de “o que essa criatura faz com essa barriga deste tamanho?” Minha barriga estava muito grande, mas muito grande e eu tinha engordado apenas 11kg! Você já começa a se sentir muito grande, mas eu estava curtindo, ADORAVA e estava disposta a esperar o tempo que fosse necessário.

E foi necessário esperar bastante... Nas consultas, minha médica começou a dizer que o bebê estava encaixado mas não tinha descido, estava alto. Minha professora de yoga falava para eu conversar com minha filha e incentivá-la a descer e eu sempre fazia isso nos momentos de relaxamento, dizia que eu estava pronta para recebê-la.

Fechamos as 39 semanas e nada... tudo na mesma!

A esta altura minha obstetra cogitou a possibilidade de fazer uma cesária, eu perguntei por quê?? Eu estava ótima e o bebê também, tudo estava bem em todos os exames. Lembro dela perguntar porque eu não queria fazer cesariana, se tinha medo. Eu respondi que para mim o problema não era fazer uma cesariana, que não tinha medo de cirurgia. Para mim o problema era não fazer o parto normal, não passar por esse momento que eu considerava maravilhoso e único, algo só meu, que ninguém poderia vivenciar no meu lugar.

Bem, e nessa consulta ela viu que eu não era apenas mais uma querendo parto normal. Eu não estava muito disposta a negociar. Então ela disse que eu estava muito tranqüila e bem informada e que neste caso poderíamos esperar mais uma semana.

Fechamos 40 semanas e ...NADA....

Eu continuava ótima e o bebê também. A essa altura toda minha família e a do meu marido, que não moram em Curitiba, já estava aqui e acho que apenas isso me pressionava um pouco. Todas aquelas pessoas aqui, que vieram de tão longe, já estavam ha praticamente 10 dias e nem sinal de o bebê nascer.

Então tivemos uma consulta e a médica quis marcar a cesariana, e eu comecei a chorar, era uma quinta-feira. Acho que ela se impressionou com minha reação e também ficou emocionada, disse que então esperaríamos até a próxima terça-feira e aí, se não mudasse o cenário marcaríamos a cirurgia.

UFA!!! Ganhamos alguns dias!!!

Quando essa consulta terminou passei a viver uma constante espera. Esperava que a qualquer momento uma dor diferente viesse, que alguma coisa diferente escorresse entre minhas pernas, mas tudo era tão tranqüilo, tão normal.... nenhum desconforto a não ser o da pressão de ter que acontecer alguma coisa até terça-feira.

E quando amanheceu segunda-feira para minha surpresa não tinha sentido NADA de diferente. Chamei meu marido para conversar e disse que não queria marcar cesariana nenhuma, que sabíamos que nossa filha estava bem e que poderíamos esperar até 42 semanas. Pedi que ele ligasse para a médica e falasse que não iria marcar nada para terça-feira. Ele fez isso! Ela então pediu que mesmo não sendo para fazer a cirurgia fôssemos no hospital no dia seguinte para fazermos um exame mais detalhado do bebê.

Lembro de naquela segunda feira ter feito acupuntura e pedi ao meu acupunturista para apenas relaxar pois estava estressada com aquela pressão de tem que nascer.....

E então para minha surpresa após o almoço comecei a sentir uma coisa diferente. Pensei “hummm....isso está parecendo novo... nunca senti antes, então acho que pode ser um bom sinal”. Fiquei bem quieta, não falei para ninguém, mas pedi ao meu marido que não voltasse para o escritório e ficasse comigo. Durante a tarde aquilo, que não quero chamar de dor, pois para mim era algo tão desejado, começou a ficar mais forte e quando vinha tinha que ficar de pé e andar. Comentei então com meu marido, assim com muita naturalidade...”acho que comecei a sentir as tais contrações” e pedi que ele também ficasse bem quietinho. Toda a nossa família estava conosco e eu não queria criar falsas expectativas em ninguém.

Naquele dia todos tinham combinado de ir assistir ao Auto de Natal, uma encenação do nascimento de Jesus muito bonita, e então quando deu 19h meu marido foi levá-los e eu fiquei sozinha em casa. Nesta hora percebi que realmente o que eu sentia só podia ser contração. Quando aquilo vinha eu precisa para, me agachar e me concentrar totalmente, passou a ser muito intenso, e eu estava MARAVILHADA!!!!! Quando o Márcio chegou começamos a marcar os minutos e então vimos que elas estavam com intervalos regulares e rapidamente se intensificando.

Quando deu 21h30 ele falou “vamos para o hospital” eu disse que não, que iríamos bater lá e voltar eu estava bem ainda e a notícia que tinha era de que mulher em trabalho de parto urra de dor. Ele insistiu pois as contrações estavam de 7 em 7 minutos. Então tá, peguei minha bolsa (só a bolsa mesmo pois tinha certeza de que ia bater no hospital e voltar) e nesse meio tempo nossa família voltou e minha mãe foi conosco.

No carro eu pensava “ooobbbbaaaa a noite vai ser animada, finalmente chegou a hora”! Sabia que estava em trabalho de parto, mas estava bem e feliz, preparada para voltar para casa e encarar horas de caminhadas, respirações, duchas, massagens... tudo aquilo que sonhava fazer por mim e meu bebê.

Quando chegamos ao hospital o médico de plantão me olhou e disse para meu marido “acho que ela ainda não está em trabalho de parto, pois está caminhando e conversando normalmente, deve ser o que chamamos de falso trabalho de parto, mas vamos examinar”.

Para nossa surpresa eu estava com 5 de dilatação e ele disse para já ficar internada. Ligou para minha médica, o que era procedimento de rotina, e disse algo que ficou gravado em mim “mas o bebe ainda está alto”. Tudo bem, eu pensei, eu estou bem e agüento até ele descer.

O Márcio foi cuidar da papelada da internação e minha mãe ficou comigo. Sempre que vinham as contrações eu fazia as respirações que treinei nas aulas de yoga e estava bem tranqüila.

Então o Márcio chegou com a enfermeira e uma cadeira de rodas para subirmos ao centro obstétrico. “Para que essa cadeira?” eu pensei, e disse a ela que iria caminhando. Me sentia ótima, confiante, forte, disposta. Não é que eu não sentisse dor, é que eu estava tão feliz que queria participar ativamente de tudo.

Então subimos todos, a enfermeira, minha mãe, o Márcio e eu. Quando chegamos na porta do centro obstétrico a enfermeira disse que o Márcio não poderia entrar e eu fiquei irritadíssima pois o combinado era que ele entraria comigo. Eram 11h da noite, não tinha mais ninguém naquele hospital e ela veio com uma conversa de que a médica teria que autorizar porque a presença dele poderia constranger outras gestantes..... Ahhhh aí eu já me armei toda para a briga, mas antes que pudesse falar o Márcio percebeu tudo e falou para eu entrar que ele ligaria para a Dra e logo entraria.

Realmente esse pessoal de hospital não entende nada de parir um filho.... Todo o encanto e ternura deste momento começam a sumir quando você se depara com aquele ambiente hospitalar, aquela camisolinha ridícula que só mesmo com anestesia geral para você usar, e aquelas pessoas te olhando sem o menor acolhimento, querendo te dizer tudo o que você deve fazer, como se você fosse um ser sem vontade e sem desejos.

A partir daquele momento me deparei com a frieza com que o sistema de saúde brasileiro trata o nascimento de um filho e fiquei sozinha naquela sala horrível, com uma roupa ridícula e uma touca mais ridícula ainda. Mas tudo bem, eu pensei, minha querida professora de yoga tinha dito que isso iria acontecer: “Querida, esteja preparada para ficar sozinha” e então comecei a conversar com minha filha, caminhava e dizia a ela que viesse em paz pois a mamãe estava pronta para recebê-la, que tivesse coragem pois iríamos ajudá-la no que fosse preciso, que era hora de trabalharmos juntas! E assim fiquei até que apareceu uma enfermeira e perguntou se eu estava bem, disse que era melhor eu deitar....... Ai ai ai, elas realmente não conseguem nos ajudar muito!!!!

Pedi para pegar minha meia porque não ia sentar e o chão estava gelado para ficar andando com aquele sapatinho de TNT (ridículo!!!). Ela disse que não podia, eu insisti, ela disse que não podia... eu insisti DE NOVO. Então fomos até a salinha onde ficaram minhas roupas e pude ver minha mãe, o Márcio e a Dra conversando, ela tinha acabado de chegar. Dei um sorriso e sinalizei que estava tudo bem, e gritei que era para o Márcio entrar!!!

Quando eles chegaram à super sala de parto eu continuava andando e respirando, andando, respirando e conversando com minha filha.... já era quase meia noite e ela fez o exame de toque... 7cm de dilatação mas o bebê ainda estava alto!!!

Então ela sugeriu que eu fosse para a ducha, lá fomos nós. O Márcio ficou lá, o tempo todo comigo, foi bem relaxante e alivia muito a dor, mas teve uma hora que pensei “Meu Deus, quanta água, que desperdício..... acho que vou sair....” Aí logo a Dra chegou, então me sequei e me deitei de novo para mais um exame..... 8cm. Pedi a ela para andar mais um pouco, é extremamente doloroso ficar deitada ou parada, ela disse que tudo bem, a dilatação estava indo super bem, mas o bebê ainda estava alto e o trabalho de parto ainda poderia demorar umas 4h (isso para mim não era nenhum problema!!!).

Minha filha pode demorar o tanto que quiser, eu pensava, eu estou preparada! E ali ficamos eu e o Márcio, não tínhamos as músicas nem os óleos que eu havia escolhido, muito menos uma luz amena e um ambiente tranqüilo como imaginei, mas tudo bem, nossa filha estava chegando, nós estávamos juntos e bem, e isso fazia o momento mágico.

Lá vem a Dra de novo para fazer outro toque (para que tocar tanto, né?!?!), 9cm de dilatação só que a bolsa não estourou e o bebê continua alto. Ela então mede os batimentos cardíacos e dá baixo (não lembro quanto), mas eu estava tendo contração!!!! E lembro de ter lido que durante a contração o batimento do bebe diminui!!!! Poxa, será que ela não sabe disso!!! Então falei, e ela disse que estava muito baixo mesmo para ser durante uma contração e que minha filha deveria estar em sofrimento.... Mas insisti para ela medir de novo e é óbvio que ela mediu e deu normal!!!!!

Lembro de nesse momento ela começar a se dirigir mais ao Márcio para explicar o que estava acontecendo. Eu estava muito concentrada em minhas respirações e convicta de que tudo estava bem, era só deixar a natureza seguir seu fluxo. Mas ela veio com uma história de que a diferença entre a medição durante e fora de uma contração não poderia ser tão grande...... e que seria melhor fazer uma cesária.

Lembro que senti uma profunda frustração e me dei conta de que ela não tinha noção do que significava para mim aquele momento. Tá, eu falei, não dá para a gente tentar nada antes, eu não quero uma cesariana!!!! Dentro de mim algo dizia que a Laís (minha filha) estava bem, nós estávamos bem!!!!!.

Então ela quis fazer um outro toque, disse que já estava totalmente dilatada, o colo estava ótimo, que estava tocando na membrana e poderia até romper a bolsa... Só que enquanto ela me examinava e falava, na verdade ela já estava era rompendo a minha bolsa..... Fiquei muito chateada com aquilo, mas se era a forma encontrada para tentarmos evitar uma cirurgia tudo bem.

Bem, neste momento, comecei a sentir as verdadeiras dores do meu parto. Quando ela rompeu a bolsa, senti a dor de não ser respeitada. Não estava convencida de que aquele procedimento era necessário. Meu marido me chama de teimosa, mas eu tinha estudado e sentia que estava tudo bem. Poxa, a barriga é minha e o bebê está lá dentro, será que minha intuição não conta???. Não é que eu queira saber mais que a médica, mas eu também sei alguma coisa e confio nisso, mas isso não é levado em consideração e nem respeitado. Sabia que um parto deve ter o mínimo de intervenções possíveis e aquela era uma tremenda de uma intervenção!!! Romper a bolsa!!!!

E então, quando a bolsa é rompida o líquido está um pouco escuro, era mecônio, o bebê tinha feito cocô. Pronto, dá para imaginar como as coisas transcorreram a partir daí. A médica chamou meu marido, mostrou o líquido e disse que o bebê estava em sofrimento e precisávamos fazer uma cesária urgente!

Só um pouquinho doutora,eu ainda tive a capacidade de dizer, eu sei que o mecônio isoladamente não significa muita coisa e ainda existem graduações para essa tonalidade escura do líquido e pelo que eu posso ver ele não está tão escuro assim.

Nessa hora ela, a enfermeira que estava na sala e meu marido me olharam com uma cara assustada como se eu quisesse matar minha filha.... E aí aquelas dores (da falta de respeito) começaram a ficar cada vez mais intensas e se somaram a outra dor, a da frustração. A Dra se defendeu, disse que o que eu falei não era bem assim e que precisávamos fazer a cirurgia urgente.... Meu marido veio para perto de mim e me disse que eu tinha tentado tudo que podia, mas as coisas aconteceram assim, agora era hora de aceitar e confiar na médica.

Nossa, quanta, mas quanta dor eu senti nessa hora. Uma dor desesperadora!!! Me sentia impotente, desrespeitada, derrotada, incapaz, comecei a chorar sem parar, me sentia uma fracassada!!! Eles quiseram me levar deitada para a sala de cirurgia.... OPA... sai pra lá que eu não estou doente, eu pensei. Me levantei e quis ir andando, e chorando, chorando muito!!! Meu marido estava comigo e só pedia para eu ficar calma, que eu tinha feito tudo o que podia, que eu estava de parabéns, que era para eu ficar feliz pois nossa filha estava chegando....

Como eu gostaria de me sentir assim, mas infelizmente não era isso que sentia! Sentia que me roubavam uma oportunidade abençoada de participar ativamente da chegada de minha filha ao mundo e isso me doía muito, mas muito mesmo!! Eles todos me roubavam descaradamente algo tão valioso, impossível de ser mensurado, e eu ainda saía como a vilã da história, todos me olhavam com uma condenação no olhar (ou eu que me sentia condenada, já não sei.....)

Na hora de entrar no centro cirúrgico o anestesista ( meu Deus!!! Eu achei que jamais fosse precisar dele) falou para o Márcio esperar do lado de fora. AHHHH NÃO, ele entra se não eu não vou!!! Espera aí, vocês me roubam um momento mágico e único em minha vida e agora ainda querem que meu marido não participe!!! Aquelas pessoas todas me assustavam, tratavam tudo de forma tão impessoal, conversavam entre si como se nós (eu, minha filha e meu marido) fôssemos as figuras menos importantes naquele cenário.

Então empaquei ali na porta com meu marido e comecei a chorar mais forte ainda, sentindo aquela dor estranha, para a qual eu não estava preparada. Não havia alívio para aquela dor que sentia, não tinha posição, respiração ou recurso que ajudasse, era desesperador. E o anestesista me chamando, dizendo que tinha que ser rápido para eu entrar logo, mas eu não quero, eu não quero entrar aí, que droga, será que ninguém pode me dar um tempo, pelo menos para eu digerir essa idéia!

Aiiiii, mais uma vez aquela dor de não ser respeitada, ninguém se compadecia do meu sofrimento. Pode parecer exagero falar assim, mas não é. Eu realmente sofria muito naquele momento e ninguém foi acolhedor, ninguém parecia me entender ou querer me entender, todos só queriam correr e fazer tudo mecanicamente como já estão tão habituados!

Meu marido tentava me animar e me consolar, mas acho que ele também estava com medo e por isso também tinha pressa. Pressa que eu aceitasse logo entrar naquela sala com aquele anestesista e fazer logo essa cirurgia para que nossa filha nascesse logo e tudo terminasse logo.

Fui... me sentia derrotada, vencida, humilhada, era uma dor horrível. Quando entrei naquele centro cirúrgico todo e qualquer resquício de magia, beleza e serenidade que imagino que deva envolver um nascimento desapareceram!!! Tive que tomar anestesia, a maior de todas as dores pois era a sinalização mais evidente de que a partir daquele momento eu não significava e não podia mais nada!!! Dar a luz a minha filha já não me pertencia mais! Eu era uma mera máquina orgânica a qual seria aberta e de onde eles retiraram uma outra máquina, só que uma miniaturazinha!

Para a coisa ficar ainda menos humanizada eles sobem um pano na nossa cara e te mandam ficar com os braços estendidos (ainda me embrulha o estômago de lembrar)! É tanta luz, tanto pano verde, tanta gente que você nunca viu, tanta conversas entre eles, tanta impessoalidade, tanta falta de respeito, tanto desconhecimento do significado no nascimento! Minha vontade era gritar, mas eu já não conseguia mais, e então senti a dor da impotência. “Se pudesse sairia correndo e ganharia minha filha sozinha, no meio do mato”, eu pensava. Sozinha nada!!!! Nenhuma mulher está sozinha na hora de parir, todas as forças da Natureza estão ao seu lado, há uma falange de bons espíritos a auxiliá-la, tudo conspira a seu favor, mas infelizmente nosso sistema de saúde não comunga desta opinião.

Só recobrei um pouco de paz quando vi o Márcio se aproximar de mim, deu um segundo e ele falou, NASCEU. Ai meu Deus, como eu chorei... era um misto de vitória com derrota, de alegria com tristeza, de mágico com mecânico!!! Trouxeram nossa filha para nós e eu não conseguia falar nada só chorar, chorar e chorar. Meu marido então não tirou mais a mão dela, eu não conseguia segurá-la, levá-la ao meu peito e dar-lhe de mamar como tinha imaginado. Minha filha, concebida e gerada por mim, mas que não pude vê-la chegando ao mundo, nem meu marido ajudando a cortar o cordão como era meu desejo e isso ainda me doía muito, mas tinha também a gratidão de saber que ela estava ali.

Foi tudo tão mais rápido e doloroso do que eu tinha imaginado. É muito difícil você falar sobre isso porque todos usam o jargão “o importante é que o bebê está bem, ela está aí, viva, linda, saudável, é isso que importa”. Depois de passar por toda essa frustração você ainda tem que se contentar com essa explicação!!! Parece que continuar a se indignar e questionar é ingratidão com a vida que me deu uma filha tão maravilhosa. Mais uma vez o sistema de saúde e a nossa sociedade te levam a crer que você tem que aceitar, que é assim mesmo, parto normal é muito difícil, quase impossível de acontecer, é muito arriscado e perigoso.... Bem, tudo isso causa uma tremenda confusão emocional em nós mães, que já não sabemos mais o que sentir ou como pensar. Não é à toa que demorei quase um ano para conseguir falar abertamente sobre isso.

Continuo a acreditar que meu parto poderia ter sido normal e que minha filha estava bem, prova é que a tal nota que eles dão ao bebê quando nasce (APGAR) foi 9 e9. Dentro de toda a confusão de sentimentos que se apoderaram de mim a única coisa que não consegui sentir foi raiva da minha médica. Sei que ela fez o que pode, o que sabia o que conseguia fazer. Verdade seja dita, o problema é justamente esse, nossos médicos (salvo algumas exceções, que eu mesma ainda não conheço....) não sabem ajudar uma mulher a parir. Eles não aprenderam isso e nem são incentivados a tal. Eles não conseguem deixar que a natureza faça seu trabalho, que a mulher assuma o controle de seu corpo e que a vida surja de forma natural. Sou grata a minha médica por ter me tirado minha filha, mas não me contento mais com o que ela tem a me oferecer, nem ela, nem os outros médicos, nem as enfermeiras, nem os hospitais.

Hoje consigo dizer, ainda em voz baixa, que meu parto foi uma experiência dolorosa e traumática, mas nem por isso minha filha deixou de ser a coisa mais linda que aconteceu na minha vida! Fiz este relato, em primeiro lugar por mim, para me ajudar a superar essa cicatriz que ainda dói, e também para exemplificar às outras mulheres grávidas o quão árdua é a luta das que querem parir seus filhos. Que elas não se deixem iludir como eu, achando que seus médicos realmente são favoráveis ao parto normal e que os hospitais hoje estão preparados para isso. Que elas sejam fortes e decididas, que busquem se informar, que façam yoga, tenham uma doula e não precisem de hospitais para terem seus bebês.


O parto da Inês tinha tudo para ter sido vaginal e sem intervenções: gestação saudável de baixo risco e gestante preparada, informada e consciente de suas escolhas. Foi por água abaixo devido a uma assistência intraparto inadequada. Médica intervencionista (rompe a bolsa) fica insegura com presença de mecônio claro e indica uma cesárea.

Fica o aviso: muitos médicos ‘aceitam’ atender um parto vaginal, mas não sabem lidar com possíveis intercorrências, aí tudo é motivo pra uma cesárea!

14 comentários:

Gab disse...

nossa! muito doído de ler...
total desrespeito à autonomia da mulher-mãe... muito triste e indignada de saber que na real esta cena se repete todo santo dia aqui no brasil...

DÉBORA AMORIM disse...

Me sinto da mesma forma em relação ao parto do meu filhote. Quantas mulheres não se sentem assim todos os dias? E outras, que por falta de conhecimento, acham que o procedimento da médica foi corretíssimo, que fez o que pode! Muito triste tudo isso!

Flavi disse...

Muito triste e revoltante... Alguma coisa precisa ser feita, não dá para continuar assim... Quando leio relatos de partos assim e lembro das minhas cesáreas percebo como somos tratadas como tolas, burras incapazes de ter vontade própria aos olhos dessas pessoas despreparadas que trabalham na área da saúde.

Ana Luisa disse...

Nossa!! Que dor! Sem palavras... sei o que é isso!

** disse...

Que triste...mto parecido com minha história! Cheguei aos 9 cm só que cheguei com a bolsa estourada e com contrações de 1 em 1 minuto. Muita dor e ngm me deixava andar...o médico veio com essa história q o bb estava alto e q era mto grande. Me assustou dizendo que ele poderia entalar co canal vaginal...Foi um sonho que se tornou um pesadelo. Tudo por incompetência de um médico que, na minha opinião, queria se livrar logo de mim.

Paula Camargo Gerhardt - CRP 01/RO/12.562 disse...

Seu relato poderia ir para a primeira página de jornal como de utilidade pública a serviço da saúde mental da gestante!!!

fwiprich disse...

Tô vivendo esse drama também, eu sonho dia e noite com o parto normal, acabei de completar 38 semanas, mas o médico não quer passar das 39! Está tudo bem comigo, com o bebê, e a impressão que tenho é que ele quer se livrar de mim. Fora esse fato, de pessoas desinformadas, que vem o tempo todo falar como se você fosse obrigada a simplismente aceitar uma cesárea, sem questionar nada. Chorei litros por isso já.

Nayara Borges disse...

Sua história é parecida com a minha, só que no meu caso consegui ter um parto normal, apesar do médico me orientar quanto ao tamanho da bebe, do liquido mecônizado, após a intervenção com a ruptura da bolsa. Insisti muito e ele resolveu confiar nos meus instintos. Mais lá no fundo fiquei com medo que alguma coisa desse errado. Por isso dou credito ao médico, pois se der errado ele mesmo e a sociedade o culpara.

Nayara Borges disse...

O comentario quem fez foi a mãe da Nayara Borges, Luciene Borges e o e-mail é luciene.enfermagem@hotmail.com

Beatriz Cordeiro disse...

Parto normal é o parto sem complicações, seja vaginal ou cesárea. Se a menina é saudável hoje é porque foram adotados os procedimentos corretos. Eliminação de mecônio é sofrimento fetal sim, independentemente da cor. Claro que exite o pior e o menos pior. Mas liquido meconial é sinal de alerta. Ela não é menos mãe porque fez cesárea.
Eu mesma vou tentar o parto normal. Se as mulheres da minha família conseguem , eu tb posso conseguir. Não aceitaria uma cesárea marcada, mas se estivesse em trabalho e fosse indicada a cesárea, o bb vai chegar da mesma maneira.
Isso pra n acharem q sou inimiga do parto vaginal. Sou pediatra e trabalho com isso, então já presenciei partos vaginais que não foram normais. Crianças com seqüelas neurológicas e mães com complicações porque foi insistido o parto vaginal.
Mas sim, eu prefiro assistir crianças no parto vaginal pois nascem mais espertas. Não, nem sempre dá td certo....

エリカ disse...

Eu tive dois partos normais, sendo que o primeiro a bolsa estorou e memorou 18horas para vir as contracoes, sendo que o segundo o medico estorou a bolsa, nem um parto e igual, mas as vezes o medico ajuda a estorar a bolsa sim, nao vi nada de errado com sua medica, ela fez o melhor, instinto de mae acredito, mas nao se esqueca que o medico estudou anos para isso, se voce acha que o medico esta errado, entao que tivesse sua filha com uma parteira, ou tivesse sozinha em sua casa!

Enf ª Obstetriz Lúcia Elena disse...

Boa tarde! Eu concordo com parte de coisas que você relatou e parte de coisas que algumas pessoas comentaram. VAmos lá: Concordo quando você fala que o parto hospitalar e cesário não é humanizado, porém há partos normais que também não são humanizados e é pior do que uma cesáriana. Porém podemos mudar essa história e acredito que o parto cesário e hospitalar possa ser humanizado sim com muita dedicação de profissionais competentes.

Não achei que sua médica estava errada. Primeiro, você iria ter um parto (seja normal ou cesário) de um bebê pós-termo, pois vc já estava com 42 semanas de gestação e isso já é um fator que poderia ter trazido algumas complicações para você e para o bebê. Segundo, presença de mecônio é sim um sinal de alerta pois pode (eu disse: pode) ser sinal sim de sofrimento fetal e ainda corre o risco do bebê ter uma infecção por aspitação de mecônio.

Imagina se acontecesse alguma coisa com o bebê e com você, sua família inteira e a direção do hospital iria em cima da médica, então acho que ela não foi a errada da história. Ela tentou respeitar a sua escolha, mas chegou um momento que não deu mais!

Você disse que os médicos não estão preparados para o parto natural e concordo com você, mas não adianta generalizar e culpar todos os profissionais da saúde. Você sabia que em alguns estados há casas de parto onde só trabalham enfermeiros para a assistência de parto natural? Lá você encontra suites com banheiras para dar toda atenção à parturiente e aos acompanhantes durante o trabalho de parto e parto. Se sua gestação foi de baixo risco porque não fez o campanhamento pré natal e o parto (domiciliar ou não) com um enfermeiro obstétra acompanhada de uma doula? E ainda acredito que se ocorresse todas estas intercorrências ainda iriam te encaminhar para um setor hospitalar para um acompanhamento mais detalhado. (Você já estava com 42 semanas = parto pós-termo)

E outra coisa que gostaria de ressaltar, há partos normais que não são tão normais assim... Um parto normal desumano é pior que uma cesária desumana! Pense nisso!E olha que eu sou super a favor de parto natural humanizado! Mas a realidade de um parto normal desumano é pior do que qualquer intervenção cirúrgica! Muita coisa há de mudar na saúde ainda e rezo por isso e acho tbm que é possível até humanizar a cesariana, pois a cesariana não deve ser uma escolha e sim uma intervenção e esta intervnção deve sim ser humanizada assim como o parto natural.

Beijos e Parabéns pelo site!

helianakk k disse...

Sinceramente....Acho que acima de tudo Deus alem de permitir para mulher a dor de parto, ele também deixou os médicos para que acompanhassem nos seres humanos que somos incapazes de tomarmos algumas decisões em momentos tão frágil como esse, pois foi para isso que eles estudaram. Hoje estou gravida do meu segundo filho, e quero "muito" parto normal, mas estou bem ciente se qualquer coisa acontecer no momento, e colocar em risco a vida da minha filhinha com certeza irei confiar neles e em Deus e optar pelo que for melhor, pois acredito que não me perdoaria se algo acontecesse com ela por simplesmente uma vaidade minha.
Agradeça a Deus, por sua filha ser saudável. E não fique com essa magoa em seu coração, isso com certeza não te fará bem!
Beijos e fique com Deus

Alessandra Almeida disse...

Quem me dera nao precisasse passar por todo esse sofrimento e ir direto pra uma cesaria seria um sonho realizado.