25 de nov de 2010

Toque vaginal: faça você mesma!


O post de hoje foi um pedido da Flaviana, que gostaria de aprender a fazer o toque vaginal para saber a progressão da dilatação durante o trabalho de parto.

Primeiro quero ressaltar que toda mulher pode e deve se tocar! E quando digo se tocar, digo em sentido amplo, em todas as fases da vida, para conhecer seu corpo, descobrir seu sexo, se dar prazer, reconhecer seu ciclo e suas mudanças hormonais.

O toque vaginal com o intuito de avaliar o colo do útero pode ser aprendido antes da gestação, durante a gestação, ou até mesmo durante o trabalho de parto!

Perceber as modificações que ocorrem no colo uterino e no muco cervical durante o ciclo menstrual, pode ajudar a mulher a distinguir seus dias férteis.

Conhecer seu colo do útero durante a gestação permite identificar as mudanças que sinalizam o amadurecimento e a dilatação cervical, que algumas vezes precedem o trabalho de parto e outras vezes só acontecem depois de iniciado o trabalho de parto.

Então vamos lá, mãos à obra!

As instruções iniciais são exatamente as mesmas da massagem perineal e também pode ser feito em conjunto com seu parceiro, que ao aprender o toque vaginal poderá partilhar com você outras percepções.

- Encontre um lugar onde você possa ficar sozinha, ou com seu parceiro, ininterruptamente.
- Ache uma posição confortável e que você tenha maior alcance a sua vagina. Uma dica é fazer flexão de tronco (curvar-se a frente ou ficar de cócoras), pois diminui a distância entre sua mão e sua vagina.
- Lave suas mãos e peça ao seu companheiro para fazer o mesmo, caso ele vá lhe ajudar.
- Lubrifique seu dedo indicador e médio. Você pode usar vários tipos de lubrificantes: gel a base de água, óleos vegetais, óleos minerais, etc.
- Coloque seus dois dedos dentro vagina e devagar vá deslizando-os em direção ao fundo da vagina, até encontrar o colo do útero.


- O colo do útero é uma estrutura proeminente e arredondada, com consistência parecida com a ponta do seu nariz. Geralmente, encontra-se em posição posterior, isto é, voltado para trás, em direção ao ânus. Em seu centro pode ser sentido um pequeno buraquinho, que permanece fechado durante toda a gestação (imagem acima).
- Durante o trabalho de parto o colo uterino se centraliza em relação ao canal de parto (vagina) e sofre duas modificações: o esvaecimento e a dilatação.
- O esvaecimento e a dilatação são independentes entre si, um pode ocorrer antes do outro ou ambos podem ocorrer simultaneamente.
- O esvaecimento ou amadurecimento ou apagamento cervical começa com a mudança de consistência, o colo uterino se torna macio, parecido com seu lábio. A seguir vai encurtando, se tornando menos proeminente, até ficar completamente plano e bem fino como uma membrana.


- A dilatação cervical é a abertura do colo do útero (imagem acima). O pequeno buraquinho no centro do colo começa a se abrir e conforme vai se abrindo pode ser medida a dilatação introduzindo inicialmente a ponta um dedo (± 1cm). Com a evolução da dilatação é possível colocar os dois dedos e a partir daí se mede sempre com esses dois dedos. Ao colocar os dois dedos você deverá abri-los o máximo possível e tentar perceber exatamente a posição/distância em que eles ficaram. Ao retirar os dedos, reproduza a posição/distância percebida e meça numa régua quantos centímetros tem da parte externa do dedo indicador até a parte externa do dedo médio (é medido por fora dos dedos). Deve ser medido numa régua, pois a largura dos dedos varia de pessoa para pessoa.
- A dilatação total é padronizada como 10cm. Porém na prática, para que haja o parto, considera-se a dilatação total quando no toque não se sente mais nada do colo, apenas a cabeça do bebê.
- Se a dilatação começar antes do colo se apagar, você poderá sentir a proeminência do colo, isso é chamado de rebordo de colo. É uma situação comum, que geralmente se resolve sozinha com o avanço do trabalho de parto.
- É comum o esvaecimento e/ou dilatação começar dias ou até mesmo semanas antes do parto, sem que isso signifique trabalho de parto iminente.
- Como é comum também o trabalho de parto se iniciar sem nenhuma mudança no colo e todo o processo de esvaecimento e dilatação ocorrerem durante o mesmo.

Por fim, cabe lembrar que cada mulher e cada parto são únicos, e que conhecer a dilatação não quer dizer muita coisa sobre a duração do trabalho de parto. Digo isso, pois tem mulheres que ficam doze horas para dilatar 2cm e depois dilatam os outros 8cm que faltam em duas horas, como tem também mulheres que após completarem a dilatação total ficam muito mais de duas horas até sentir os puxos do expulsivo – esses exemplos são para mostrar que cada caso é um caso, não tem fórmula, receita, padrão, tudo é relativo!

Espero ter ajudado a Flavi e muitas outras gestante por aí...

23 de nov de 2010

Parto Humanizado e Conferência Rehuna 2010 no Globo Comunidade DF



Às vésperas da III Conferência Internacional sobre Humanização do Parto e Nascimento, que será realizada aqui em Brasília de 26 a 30 de novembro, o Globo Comunidade DF de domingo (21/11) trouxe uma linda matéria sobre Parto Humanizado (clique aqui), com direito a relato e fotos de um parto domiciliar, acompanhado pela minha amiga-linda-doula-fotógrafa Débora Amorim (clique aqui) e também uma esclarecedora entrevista com a Dra. Daphne Rattner, presidente da III CIHPN, sobre os temas que serão abordados ao longo desses cinco dias de Conferência (clique aqui).

Essa Conferência promete bons frutos! Para quem for participar: até breve!

18 de nov de 2010

Exercício e massagem perineal


Este post é especialmente para quem está se preparando para o parto vaginal. Mas estas informações são úteis e relevantes para todas as mulheres!

Exercícios para o Assoalho Pélvico (para fortalecer o períneo)


Exercício 1 - Contração e Relaxamento
Deite-se de costas, de lado, ou de bruços, com as pernas e o peito relaxados. Imagine o “oito” do assoalho pélvico. Faça uma contração e sinta os esfíncteres ficando mais apertados e as passagens internas (vagina, uretra, ânus) mais fechadas. Relaxe. Concentre-se no esfíncter da frente, o que fecha a vagina e a uretra. Coloque a ponta dos dedos em cima do osso do púbis (mais ou menos onde começam os pêlos, indo da barriga para a vulva) e contraia bem forte a vagina. Dá para sentir a contração nos seus dedos também, pois o osso se move. Conte até cinco e relaxe. Repita 10 vezes. À medida que você ficar mais forte nessa área vá aumentando as repetições. O ideal é chegar a 50 vezes, três vezes ao dia.

Exercício 2 - Elevador
Coloque-se em uma posição confortável. Imagine que você está subindo em um elevador. À medida que você sobe os andares, tente imaginar os músculos cada vez mais contraídos, sem perder a contração que vai se acumulando. Quando estiver bem contraído, vá descendo os “andares” aos poucos, até relaxar completamente os músculos. Sempre termine o exercício com uma contração.

Nesses exercícios, a qualidade é tão importante quanto a quantidade. E o bom é que esses exercícios podem ser feitos durante praticamente qualquer atividade, e ninguém precisa saber que você está se exercitando.


Massagem Perineal


A massagem no períneo no período pré-natal tem se mostrado eficaz na prevenção da necessidade de episiotomia e na diminuição das lacerações que a mulher pode ter durante o parto. Essa técnica é usada para ajudar no alongamento/flexibilidade e preparar a pele do períneo (parte de pele, músculos etc. entre a vagina e o ânus) para o parto. Essa massagem não vai apenas preparar o tecido do seu corpo, mas vai também permitir que você conheça e aprenda sobre as sensações do parto e como controlar esses poderosos músculos. Este conhecimento irá lhe auxiliar e preparar para dar à luz o seu bebê. O conhecimento do que você sente nessa região do corpo vai lhe ajudar a manter-se relaxada e relaxar o períneo durante o parto e também durante outros exames vaginais que você tenha que fazer em sua vida.

Instruções:
- Encontre um lugar onde você possa se sentar e ficar sozinha, ou com seu parceiro, ininterruptamente. Tente ver seu períneo com ajuda de um espelho, note como ele é... Nem sempre será necessário um espelho para essa tarefa!
- Você pode usar compressas com toalhas mornas no períneo por 10 minutos, ou usar um banho morno (de banheira, assento, ou chuveiro, em último caso), caso precise relaxar.
- Lave suas mãos e peça ao seu companheiro para fazer o mesmo, caso ele vá lhe ajudar nas massagens.
- Lubrifique seus dedos polegares e o períneo. Você pode usar muitos tipos de lubrificantes: KY Gel®, óleo de vitamina E, óleo vegetal puro (óleo de semente de uva é uma boa indicação!) etc.
- Coloque seus dedos polegares um pouco dentro de sua vagina, empurre-os para baixo e pressione para os lados. Você deve sentir um leve estiramento, formigamento, ou uma leve queimação, mas nada que seja dolorido. Mantenha esse movimento por 2 minutos ou até que a região fique levemente adormecida.
- Se você tem episiotomia ou lacerações prévias, preste especial atenção ao tecido de cicatrização que, geralmente, não é tão estendível e onde a massagem deve ser feita mais intensamente, mas com cuidado.
- Massageie em volta e por dentro da região mais externa da vagina e seus tecidos, onde ela se abre, e mantenha sempre a lubrificação.
- Use seus polegares para puxar um pouco os tecidos, forçando-os a se abrirem, imagine como seria se a cabeça do seu bebê estivesse fazendo esse movimento na hora do parto.
- Se seu parceiro estiver fazendo a massagem, pode ser muito útil que ele use os polegares. A sensação pode ser mais bem percebida por você, mas não deixe de guiá-lo com suas sensações para que ele saiba qual a pressão que deve utilizar.
- Nessa massagem, quando ela está sendo feita pelas primeiras vezes, é comum que seja possível usar somente um dedo, até que a musculatura seja trabalhada e possa ser estendida.

Atenção:
1. Evite mexer ou abrir o orifício da uretra (logo acima da vagina) para evitar infecções urinárias.
2. Não faça massagens no períneo se você tiver lesões ativas de herpes (isso pode causar o aumento da área das lesões).
3. Você pode começar essas massagens em torno da 34ª semana de gravidez. Se você já passou da 34ª semana e ainda não começou, não desista! A massagem pode lhe trazer benefícios ainda assim. Você pode fazê-la pelo menos uma vez por dia.
4. Lembre-se que a massagem sozinha não vai proteger seu períneo, mas ela é parte de um grande esquema. Escolher uma posição vertical para parir (de cócoras, de joelhos, sentada etc.) favorece a distribuição de pressão no períneo. Se você escolher parir deitada de lado, isso também reduz muito a pressão no períneo. Deitada de costas, totalmente na horizontal, é a posição para parir em que há mais chances de provocar lacerações e necessidade de episiotomia.

16 de nov de 2010

Bebês-objeto: mais uma razão para humanizar o parto


Gente, aconteceu de novo: hoje estava pensando sobre um assunto - a importância de esperar a hora do bebê querer nascer - e quando abri meu email lá estava este maravilhoso texto escrito pela psicoterapeuta Adriana Tanese Nogueira, fundadora da ONG Amigas do Parto. Haja sintonia!


Pode-se dizer que o núcleo de toda neurose é viver na condição de objeto. A pessoa-objeto é aquela que perdeu sua autonomia e poder decisório. Ser objeto de uma emoção, de uma relação, de uma escolha (alheia ou própria) ou de uma mentalidade tira o sentido da vida.

A condição de objeto nasce por causa de uma relação. A identidade tem sua origem nas relações que moldaram a vida de um indivíduo. Querendo ou não tudo (ou muita coisa) começa na infância.

Ser tratado com objeto significa estar à mercê dos outros, do que eles decidem por nós, pensam que é melhor para nós, nos fazem fazer e nos fazem pensar. A pessoa objeto não tem escolha, quer seja tratada como coisa rara e preciosa ou como uma lata de lixo: qual a diferença se lhe é retirada toda sua autonomia?

Quando eu tinha uns dez anos, testemunhei algo que me horrorizou. Uma vizinha, pouco mais velha do que eu, chegou um dia com uma gatinha nas mãos. O bichinho deveria ter um mês e pouco, era branquinho e fofo. Com o passar dos dias, vi a gatinha ficar com uma barriga enorme, mole e pesada. Inquietei-me, percebi que o animal vivia no colo, mamando leite da mamadeira e sendo acarinhado. Uns dias depois, a menina chegou sem gatinha: ela tinha morrido. O excesso de comida e de “carinho” a havia matado. O pobre animal não tinha escolha. Se fosse adulto, teria arranhado sua dona e se libertado de seu colo sufocante. Mas sendo bebê, ele era impotente e indefeso.

Respeitar os tempos e ritmos da outra pessoa faz parte de uma relação sujeito-sujeito. O outro não existe para satisfazer nossas necessidades, ele tem seu próprio universo ao qual atender. Cada ser humano é um mundo vivo, amá-lo quer dizer levar em consideração sua individualidade que é única, diferente da nossa, muitas vezes incompreensível, difícil de decodificar… enfim: o outro deve continuar sendo o outro, se queremos mantê-lo vivo. O outro que perde sua alteridade, que é completamente dominado por nós, morre como indivíduo.

Desde quando uma pessoa deve ser considerada sujeito? Desde o ventre materno.

Forçar um bebê a sair do útero é tratá-lo como um boneco, sem necessidades, tempos e ritmos próprios. É privá-lo de sua autonomia antes mesmo dele poder respirar sozinho, ou seja, apagando sua chance de entrar dignamente neste mundo, como um vencedor, um superador de obstáculos, alguém que deu o primeiro passo e alcançou sua meta.

O mecanismo que dispara o trabalho de parto (curiosamente) ainda não é conhecido. Afinal, quem busca essas respostas são pesquisas médicas cuja visão de mãe e bebê é estritamente física. Ambos são corpos, combinações complexas de células que reagem a determinados agentes químicos. Não é da obstetrícia (pelo menos não desta que está sendo conduzida) levar em consideração outros fatores, como a psicologia da mãe e do bebê intra-útero. Não é da medicina, por exemplo, dizer que uma mãe assustada não conseguirá parir, mas todo profissional competente-e-sensível sabe que é exatamente isso que acontece.

Agora, o que dizer do bebê dentro do útero? Por ele ser pequeno é menos do que um adulto? Tem menos sensibilidade, menos humanidade, menos tudo? Porque o coitado não pode xingar quem o sacode (já viram como é uma cesárea?) e o arranca do seguro e aconchegante útero de sua mãe quer dizer que para ele está tudo bem? Não esperar pelo sinal do bebê, atropelá-lo com os interesses do sistema, a agenda do médico e da própria mãe é simples falta de respeito e consideração.

Afinal, ele é tratado como coisa. Preciosa e maravilhosa o quanto quiser, mas sempre um objeto sem vontades, necessidades e tempos próprios. Algo que deve ser cuidado, não alguém com quem aprender a interagir. Coisas dão menos trabalho que pessoas.

14 de nov de 2010

Dez razões para atender ao choro de uma criança


Li este artigo quando estava grávida e suas palavras confirmaram exatamente aquilo que eu sentia e acreditava, mas não sabia porque nem como explicar. E hoje, que minha filha passou o dia muito chorosa, lembrei que tinha salvo este texto e decidi compartilhá-lo.


1.        As primeiras tentativas de comunicação do bebê são não-verbais. O bebê não é capaz de expressar sua alegria em palavras, então sorri. Ele não pode expressar em palavras sua tristeza ou raiva, mas chora. Se for atendido quando sorri, mas não quando chora, corre o risco de entender que só é amado e cuidado quando está alegre. Crianças que são tratadas assim ao longo dos anos não se sentem verdadeiramente amadas e aceitas.

2.        Se as tentativas de uma criança mostrar tristeza ou raiva forem rotineiramente ignoradas, ela não conseguirá aprender a expressar esses sentimentos em palavras. O choro precisa ser atendido de forma positiva e apropriada para que a criança perceba que todos os seus sentimentos são aceitos. Se os seus sentimentos não forem aceitos e o choro for ignorado ou punido, ela entende que sua tristeza e raiva são inaceitáveis, independentemente de como sejam expressos. Será impossível para a criança perceber que a expressão da raiva e da tristeza em palavras apropriadas deve ser aceita, quando ela tiver idade e capacidade para usar essas palavras. A criança se comunica do modo como é possível para ela em determinada fase; ela não pode fazer algo que ainda não teve a oportunidade de aprender. A criança dá o melhor de si, de acordo com sua idade, experiência e circunstâncias imediatas. É injusto punir uma criança por não ter feito mais do quê ela é capaz.

3.        Uma criança que aprendeu que seus pais só a atendem quando ela é "boazinha", vai aprendendo a esconder dos outros, e até de si mesma, seus comportamentos "maus" e sentimentos "ruins". Quando adulta, irá negar os sentimentos "ruins", e será incapaz de comunicar toda a gama de sentimentos humanos. Na verdade, muitos adultos têm dificuldade em expressar raiva, tristeza ou outros sentimentos "maus" de um modo apropriado.

4.        A raiva que não pode ser expressa na infância não desaparece por si só. Ela é reprimida e se acumula no decorrer dos anos, até que a criança não agüente mais contê-la e tenha idade suficiente para não temer mais o castigo físico. Quando finalmente esse reservatório de raiva explode, os pais ficam assustados e perplexos. Eles esqueceram as centenas ou milhares de frustrações que foram sendo acumuladas ao longo dos anos. O princípio psicológico de que "a frustração leva à agressão" é claramente exemplificado na revolta do adolescente. Precisamos ajudar os pais a entender o quanto é frustrante para a criança sentir-se "invisível" quando seu choro é ignorado, e como se sente desamparada quando os pais punem ou ignoram tentativas de expressar suas necessidades ou emoções.

5.        Todos nascemos sabendo que cada um de nossos sentimentos é legítimo. Perdemos aos poucos esse sentido quando apenas o nosso lado "bom" obtém uma resposta positiva. Isso é trágico, pois somente quando aceitamos a nós mesmos e aos outros, independentemente de nossos erros, podemos ser verdadeiramente amorosos. Se não formos totalmente amados e aceitos na infância, não poderemos saber como alguém se sente assim, e não seremos capazes de comunicar isso aos outros, por mais leitura, reflexão e psicoterapia que possamos fazer. Nossas vidas seriam bem mais fáceis se tivéssemos simplesmente recebido amor incondicional durante nossos primeiros anos de vida!

6.        Pais que se perguntam se devem ou não atender ao choro do filho deveriam pensar um pouco em sua própria reação em situações semelhantes. Os pais podem achar certo ignorar o choro do filho, mas ficam muito bravos se o cônjuge ignorá-lo quando ele ou ela quer estabelecer um diálogo. Em nossa sociedade, muita gente acha que o indivíduo só tem direito a ser ouvido a partir de uma certa idade. Mas que idade seria essa? Bebês e crianças não são menos gente só porquê são pequenos e indefesos. Se não por outro motivo, quanto mais indefesa uma pessoa mais ela deveria merecer nossa compaixão, atenção e cuidados.

7.        Se as crianças aprendem com o exemplo dos pais que pessoas indefesas merecem ser ignoradas, elas podem perder sua compaixão inata por outros seres humanos. Se quando eram crianças indefesas tiveram seu choro ignorado, irão acreditar que esse é o modo certo de agir em relação aos mais fracos: "quem tem a força, tem a razão". Sem compaixão, prepara-se o cenário para a violência futura. Quem se pergunta o porquê de um criminoso violento não ter piedade de suas vítimas, precisa imaginar onde foi que ele perdeu sua compaixão. A compaixão não some de um dia para o outro. Ela é subtraída, gota a gota, por pais indiferentes ou punitivos, até desaparecer completamente. A perda da compaixão é a maior desgraça que pode se abater sobre uma criança.

8.        A criança que aprende pelo exemplo dos pais que ignorar o choro de um filho é correto, naturalmente vai tratar do mesmo modo seus próprios filhos, a menos que alguém intervenha. Os cuidados parentais inadequados passam de uma geração a outra até que alguma circunstância feliz mude esse quadro. Mas as tarefas de pai e mãe são bem mais fáceis para quem aprendeu na infância como tratar os filhos! Talvez o ciclo de maus cuidados parentais seja interrompido quando as pessoas começarem a parar na rua para intervir quando presenciarem a cena de uma criança sendo humilhada. Talvez isso represente para aquela criança a primeira vez em que seus sentimentos foram considerados legítimos e importantes, e essa mensagem crucial será lembrada mais tarde, quando ela mesma tiver um filho.

9.        Chorar é um sinal designado pela natureza para perturbar os pais de modo que as necessidades da criança sejam atendidas. Ignorar o choro do bebê é como ignorar um alarme de incêndio porque o seu ruído é desagradável. Esse sinal tem o objetivo de nos perturbar para que prestemos atenção em algo importante. Só uma pessoa surda ignora o alarme de incêndio, mas muitos pais se fazem de surdos quando seus filhos choram. O choro, como o alarme de incêndio, tem por objetivo chamar nossa atenção para que cuidemos de necessidades importantes da criança. Não faz sentido imaginar que a natureza teria dado a todas as crianças um sistema de alarme que não serve para nada.

10.      Pais que só reagem a comportamentos "bons" podem acreditar que estão ensinando a criança a se comportar "melhor". Mas eles mesmos são mais propensos a colaborar com pessoas que os tratam com delicadeza. É como se as crianças pertencessem a uma espécie diferente, que funciona com outros princípios de comportamento. Isso não faz sentido, porque seria impossível saber em que momento a criança passa para o modo "adulto" de ser. A verdade é bem mais simples: crianças são seres humanos que se comportam do mesmo modo que todos os outros seres humanos. Como todos nós, eles reagem melhor à delicadeza, paciência e compreensão. Os pais que não entendem porquê o filho é "mau-comportado" deveria perguntar a si mesmos: "Eu tenho vontade de obedecer quando alguém que me trata bem, ou quando alguém me trata do modo como acabei de tratar meu filho?"


11 de nov de 2010

Amamentar não rouba o tempo de sono da mãe


Esta matéria publicada agora a pouco no site português IOL Mãe caiu como uma luva para a Dulce, lá do encontro de gestantes e mães realizado hoje de manhã pela querida Rita Pinho.


A amamentação não rouba o tempo de sono das mães, ao contrário da idéia que por vezes se faz passar. Um estudo publicado no Pediatrics revela que as mães que amamentam dormem o mesmo número de horas do que aquelas que alimentam o bebê com mamadeira.

Isto apesar do bebê amamentado poder acordar mais vezes. É que o aparelho digestivo, durante os primeiros meses, não tem ainda maturidade para absorver alimento suficiente, de forma que o bebê se mantenha saciado por um período muito longo. Como o leite materno é de digestão mais fácil, os bebês amamentados tendem a acordar com mais freqüência.

Uma vez que a qualidade do sono da mãe é muito importante para o seu bem estar e saúde, e conseqüentemente também para o bebê, importava perceber se de fato a amamentação se torna um fator que agrava o seu déficit de sono. A investigação foi realizada na Universidade de West Virginia, EUA e envolveu 80 mulheres, das quais: 27 amamentaram exclusivamente até às 12 semanas de vida do bebê; 18 optaram pela mamadeira; e 35 usaram os dois métodos. Todas mantiveram registros diários da qualidade e quantidade do sono, bem como do número de vezes que acordaram durante a noite. Além disso, usaram aparelhos que registraram os períodos de sono noturno e os momentos em que sentiram sono durante o dia.

Não houve diferenças significativas nos padrões de sono dos três grupos de mães. A explicação pode estar no fato das mães que amamentam não despertarem da mesma forma que uma mãe que tem de preparar a mamadeira, pois podem manter-se no escuro e voltam ao sono profundo mais rapidamente. Além disso, o hormônio prolactina, presente no leite materno, pode ter um efeito indutor do sono no bebê.

A idéia de que as mães que optam pela mamadeira dormem mais durante a noite não passa de um mito. As mães que pensam em deixar de amamentar por acreditarem que irão passar a dormir melhor devem, portanto, desiludir-se. Não só isso não vai acontecer, como estarão a privar o bebê, bem como a si próprias, de todos os benefícios da amamentação exclusiva.

“A amamentação tem benefícios para a mãe e para o bebê e a qualidade do sono não pode ser argumento para desistir, pois não irá dormir melhor por ter deixado de dar de mamar”, garante Hawley Montgomery-Downs, que liderou o estudo.

Obs: o texto acima foi levemente alterado para facilitar a leitura, já que o original é em português de Portugal. 

9 de nov de 2010

"Indicações" das desnecesáreas


Esse post deveria ser permanente, para facilitar a consulta e salvar muitas gestantes das desculpas esfarrapadas para uma cesárea desnecessária. Salve aí para você e ajude a divulgá-lo!

Extração fetal mediante cesárea

"Essa lista é fruto de minha participação, nos últimos meses, nessa e em outras comunidades que discutem gestação e parto, com a premissa básica de devolver à mulher a condição de protagonista desses momentos maravilhosos! Espero que, divulgando-a, vocês possam ampliá-la e contribuir para evitar, pelo menos, que as mulheres sejam ENGANADAS e conduzidas sob falsos pretextos para cirurgias desnecessárias."  Dra. Melania Amorim

"INDICAÇÕES" DAS DESNECESÁREAS: 

1. Circular de cordão, uma, duas ou três “voltas” (campeoníssima – essa conta com a cumplicidade dos ultra-sonografistas e o diagnóstico do número de voltas é absolutamente nebuloso)
2. Pressão alta
3. Pressão baixa
4. Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto
5. Diagnóstico de desproporção céfalo-pélvica sem sequer a gestante ter entrado em trabalho de parto
6. Bolsa rota (o limite de horas é variável, para vários obstetras basta NÃO estar em trabalho de parto quando a bolsa rompe)
7. “Passou do tempo” (diagnóstico bastante impreciso que envolve aparentemente qualquer idade gestacional a partir de 39 semanas)
8. Trabalho de parto prematuro
9. Grumos no líquido amniótico
10. Hemorróidas
11. HPV
12. Placenta grau III
13. Qualquer grau de placenta
14. Incisura nas artérias uterinas (aliás, pra que doppler em uma gravidez normal?)
15. Aceleração dos batimentos fetais
16. Cálculo renal
17. Dorso à direita
18. Baixa estatura materna
19. Baixo ganho ponderal materno/mãe de baixo peso
20. Obesidade materna
21. Gastroplastia prévia (parece que, em relação ao peso materno, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come)
22. Bebê “grande demais”
23. Bebê “pequeno demais”
24. Cesárea anterior
25. Plaquetas baixas
26. Chlamydia, ureaplasma e mycoplasma
27. Problemas oftalmológicos, incluindo miopia e descolamento da retina
28. Edema de membros inferiores/edema generalizado
29. “Falta de dilatação” antes do trabalho de parto
30. Gravidez super-desejada (motivo pelo qual os bebês de proveta aqui no Brasil muito raramente nascem de parto normal)
31. Gravidez não desejada
32. Idade materna “avançada” (limites bastante variáveis, pelo que tenho observado, mas em geral, refere-se às mulheres com mais de 35 anos)
33. Adolescência
34. Prolapso de valva mitral
35. Cardiopatia (o melhor parto para as cardiopatas é o vaginal)
36. Diabetes
37. Bacia “muito estreita”
38. Mioma uterino
39. Parto “prolongado” ou período expulsivo “prolongado” (também os limites são muito imprecisos, dependendo da pressa do obstetra)
40. “Pouco líquido”
41. Artéria umbilical única
42. Ameaça de chuva/temporal na cidade
43. Obstetra (famoso) não sai de casa à noite devido aos riscos da violência no Rio de Janeiro
44. Fratura de cóccix em algum momento da vida
45. Conização prévia do colo uterino
46. Eletrocauterização prévia do colo uterino
47. Varizes na vagina
48. Constipação (prisão de ventre)
49. Excesso de líquido amniótico
50. Anemia
51. Data provável do parto (DPP) próximo a feriados prolongados e datas festivas

Fonte: Cesárea? Não, obrigada!
 
Mais uma brilhante contribuição da Dra. Melania Amorim para a humanidade!

6 de nov de 2010

Métodos para indução do parto


Para começar o mês de novembro resumi um artigo muito esclarecedor sobre diversos métodos para induzir um parto vaginal. Para ler o artigo na íntegra clique aqui.


Denomina-se “indução do parto” todo procedimento que provoque contrações uterinas e inicie o trabalho de parto (TP) em mulheres com idade gestacional (IG) acima de 22 semanas. É indicado quando a manutenção da gravidez significa um risco materno-fetal maior do que a sua interrupção.

As principais indicações para indução do parto são:
·            gestação prolongada
·            ruptura prematura de membranas
·            síndromes hipertensivas
·            diabetes
·            corioamnionite
·            isoimunização fetal
·            restrição do crescimento fetal (RCIU)

As contra-indicações são praticamente as mesmas que contra-indicam o parto vaginal:
·            apresentações anômalas (bebê transverso ou córmico)
·            uma ou mais cicatrizes uterinas prévias (não usar misoprostol)
·            sofrimento fetal
·            placenta prévia completa ou parcial
·            vasa prévia
·            prolapso de cordão umbilical
·            sorologia HIV+
·            herpes genital ativa

Condições cervicais desfavoráveis (índice de Bishop menor que 6) estão associadas à falha de indução do trabalho de parto, ao seu prolongamento e ao elevado índice de cesariana. Assim, métodos que promovem tanto amadurecimento do colo do útero como contratilidade uterina apresentam melhores taxas de sucesso.

MÉTODOS

Homeopatia – o Caulophyllum thalictroides é indicado para regularizar as contrações uterinas durante o TP. Apresenta ação na prevenção de contrações fracas, mas não há evidências na indução do parto.

Acupuntura – estudos sugerem que é um método seguro, praticamente sem efeitos colaterais e que parece ser efetivo na indução do parto. Em dois ensaios clínicos foram achados antecipação do parto e aumento da intensidade das contrações uterinas.

Estimulação mamária – a estimulação bilateral dos mamilos é um método natural e barato. Está associado às contrações uterinas, aumento do número de partos dentro de 72 horas e diminuição da taxa de hemorragia pós-parto.

Relações Sexuais – teoricamente pode induzir o parto por meio da estimulação física do segmento uterino inferior, ação direta das prostaglandinas do sêmen e da liberação endógena de ocitocina durante o orgasmo.

Descolamento de membranas – é feito pelo obstetra durante o toque vaginal com o intuito de descolar as membranas e dilatar o colo uterino. Além da ação mecânica sobre o colo do útero também libera prostaglandinas. Reduz a duração da gravidez sem aumentar o risco materno ou neonatal de infecção.

Laminária de alga marinha – sob a forma de bastão, era utilizada como dilatador cervical. Atualmente, seu uso tem sido preterido em favor de outros métodos mecânicos mais efetivos.

Sonda de Foley – método mecânico bastante utilizado que promove também liberação de prostaglandinas como conseqüência da separação do cório da decídua. Para melhores resultados na indução do parto é associado à ocitocina, que aumenta as contrações uterinas enquanto a sonda promove o amadurecimento do colo do útero.

Relaxina – é possível que a relaxina promova o amadurecimento cervical e, ao mesmo tempo, iniba as contrações uterinas.

Mifepristona – também chamado de RU486. Método farmacológico efetivo para induzir o parto ou amadurecer o colo do útero num período de 48 a 96 horas.

Hialuronidase – método farmacológico apenas de preparo do colo do útero, pois não promove TP. Proporciona amolecimento e esvaecimento do colo uterino. Num ensaio clínico recente, mostrou-se menos efetivo que a sonda de Foley.

Ocitocina – método farmacológico que promove estimulação da contração uterina. A ação da ocitocina depende da presença de estrógenos, que aumentam quanto maior a IG. Sua utilização varia em relação à dose inicial, intervalo entre o aumento da dose e a quantidade acrescida a cada intervalo. Quando o colo do útero é imaturo, a indução do parto apenas com a ocitocina é desaconselhável, pois está associada a uma maior incidência de partos prolongados, intoxicação hídrica, falhas e cesáreas. Para aumentar a chance de sucesso da indução do parto, a ocitocina deve ser usada junto com outro método que amadureça o colo uterino.

Dinoprostona – também conhecido como prostaglandina E2. Método farmacológico para amadurecimento cervical. Era freqüentemente usado associado à ocitocina. Foi substituído pelo misoprostol, que se mostrou mais efetivo.

Misoprostol – é um composto sintético análogo da prostaglandina E1, que ficou popularmente conhecido como abortivo. Método farmacológico que atua relaxando a musculatura do colo do útero, facilitando o esvaecimento e a dilatação cervical, e também estimulando a contração uterina, o que garante na maioria das vezes sucesso na indução do TP. Estudos mostraram que o misoprostol é tão eficiente quanto outras prostaglandinas e mais eficaz que a ocitocina na presença de colo imaturo. Porém, em alguns estudos o misoprostol e a ocitocina foram associados a uma maior incidência de ruptura uterina em gestantes com cesárea prévia, sendo desaconselhável o uso deles para indução do parto em mulheres com cesárea anterior ou cicatriz uterina.