11 de fev de 2011

Janet Balaskas e o Parto Ativo no Brasil


Não podia deixar de divulgar este evento inédito e imperdível! Aliás, uma série de eventos, em abril, nas cidades de Curitiba e São Paulo, para profissionais e casais grávidos. Quem for com certeza não irá se arrepender!

Para saber mais clique na imagem abaixo

7 de fev de 2011

Sobre o uso excessivo da tecnologia no nascimento


Trecho do artigo “Technology in birth: first do no harm” publicado no site Midwifery Today e traduzido por Rosana Oshiro do blog Materna Japão.

Vale a pena ler e refletir até onde a tecnologia é importante e/ou segura durante a gestação e o parto, dois eventos fisiológicos que na grande maioria das vezes transcorrem naturalmente, sem precisar da interferência de nada nem de ninguém!


Uma mulher de Iowa foi recentemente encaminhada a um hospital universitário durante o trabalho de parto por causa de possíveis complicações. Lá, ficou decidido que a cesariana deveria ser feita. Depois que a cirurgia foi concluída e que a mulher estava de repouso pós-operatório em seu quarto no hospital, ela entrou em choque e morreu. Uma autópsia revelou que, durante a cesariana, o cirurgião acidentalmente pegou a artéria aorta, a maior artéria do corpo, levando a uma hemorragia interna, choque e morte.

A cesariana pode salvar a vida da mãe ou do bebê. A cesariana também pode matar a mãe ou o bebê. Como pode ser isso? Porque cada simples procedimento ou tecnologia utilizada durante a gravidez e o nascimento traz riscos tanto para mãe e bebê. A decisão de usar a tecnologia deve ser pautada pelo bom senso, já que pode tornar as coisas melhores ou piores.

Estamos vivendo na era da tecnologia. Desde que o homem conseguiu ir à Lua, nós acreditamos que a tecnologia pode fazer de tudo para resolver todos os nossos problemas. Assim, é natural que os médicos e os hospitais estejam usando mais e mais a tecnologia durante a gestação e o parto. Mas a tecnologia tem resolvido todos os problemas que podem surgir durante o parto? Dificilmente. Vamos dar uma olhada no histórico recente.

O aumento recente do uso da tecnologia durante a gravidez e o parto resultou em menor número de bebês mortos ou com seqüelas?

Nos Estados Unidos, não houve diminuição nos últimos 30 anos no número de bebês com paralisia cerebral. A maior causa de morte em recém-nascidos é um peso muito baixo, mas o número de bebês de baixo peso nascidos também não diminuiu nos últimos 20 anos. O número de bebês que morreram ainda no útero não diminuiu em mais de uma década. Nos últimos 10 anos, houve uma ligeira queda no número de bebês que morreram durante a primeira semana de vida. Porém os dados científicos sugerem que houve um aumento do número de bebês que sobrevivem à primeira semana, mas que têm danos cerebrais permanentes.

O uso crescente da tecnologia salvou mais vidas de gestantes e parturientes?

Nos Estados Unidos, os dados científicos não mostram diminuição nos últimos 10 anos no número de mulheres que morreram no período perinatal (mortalidade materna). Na verdade, dados recentes sugerem um aumento assustador no número de mulheres que morrem durante a gravidez e no parto nos Estados Unidos. Então, pode-se dizer que o aumento do uso da tecnologia no nascimento não só "não salva" mais vidas de mulheres, como também "mata" mais mulheres. Esta possibilidade tem uma explicação científica razoável: a cirurgia cesariana e a anestesia epidural, ambas tem sido utilizadas cada vez mais neste país e sabemos que elas também podem resultar em morte.

Nós não deveríamos ficar surpresos com esse histórico recente (e ruim) do nascimento com uso de alta tecnologia.

Por muitas décadas, no meio do século 20, o número de crianças que morriam em torno do período de nascimento foi diminuindo. Isso ocorreu não devido aos progressos da medicina, mas principalmente pelos avanços sociais: a diminuição da pobreza extrema, uma melhor alimentação e melhor habitação. E o mais importante, a diminuição da mortalidade foi devido ao planejamento familiar, resultando em menos mulheres com muitas gestações e partos.

O atendimento médico também foi responsável por alguns dos índices de diminuição da mortalidade dos bebês, não por causa de intervenções de alta tecnologia, mas por causa de avanços médicos básicos, tais como a descoberta dos antibióticos e a capacidade de dar transfusões de sangue seguras.

Nunca houve qualquer evidência científica de que as intervenções de alta tecnologia, tais como o uso rotineiro de monitoramento eletrônico fetal durante o trabalho de parto, pudessem diminuir a taxa de mortalidade de bebês. (*ou que o uso excessivo de ultra-sons durante a gestação pudesse trazer ao mundo um bebê mais saudável)

O que isto significa é que "colocar-se nas mãos de um médico e de um hospital de alta tecnologia" não garante um nascimento mais seguro. Cada pessoa deve assumir a responsabilidade por seu parto, incluindo a decisão de usar ou não a tecnologia em si mesma e em seu bebê.

Lembre-se, a tecnologia não é "boa ou ruim", mas pode ser utilizada de forma boa ou ruim.

Os aviões podem ser usados para levar você para visitar sua família num lugar distante, ou pode ser usado para lançar bombas sobre mulheres e crianças. A tecnologia usada durante a gravidez e o parto pode ajudar você e seu bebê, caso um de vocês precisem, mas também pode vir a prejudicar você ou seu bebê.

*trecho acrescentado por Rosana Oshiro, em relação à quantidade abusiva de ultra-sons realizados no Japão (o mesmo ocorre também no Brasil).

3 de fev de 2011

Por que as taxas de cesárea são tão elevadas no Brasil?


Depois de um fim de ano extenuante e de um período sabático para renovar as energias, estou de volta ao blog! Sei que estou um pouco atrasada, mas antes tarde do que nunca: Feliz 2011 para todos meus queridos leitores!

Para começar o ano com pé direito nada melhor que o mais recente artigo publicado pela Dra. Melania Amorim, sobre a verdade por trás das altas taxas de cesáreas realizadas no Brasil.


Como comentamos no primeiro artigo desta série, as taxas de cesárea no Brasil têm se mantido em ascensão desde a década de 70 e atualmente correspondem a 47,4% dos partos (1). Essas taxas elevadas são decorrentes de um excesso de cesarianas realizadas sem indicação médica definida e se associam com aumento da morbimortalidade materna e perinatal (2, 3, 4).

Quando questionados sobre os motivos do excesso de cesáreas, muitos obstetras irão dizer que a principal causa é o desejo materno, a chamada "cesárea a pedido". Os debates éticos sobre cesariana a pedido são freqüentes e já motivaram pareceres da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), dos Conselhos Regionais (CRM) e do próprio Conselho Federal de Medicina (CFM). Defende-se, e considera-se ético, o direito da mulher de escolher o tipo de parto. A principal justificativa é que os riscos absolutos da cesariana são mínimos e que se deve resguardar o princípio da autonomia (5, 6).

Infelizmente, essa justificativa só tem funcionado no sentido de defender o direito à "escolha" da cesariana, sendo a autonomia feminina freqüentemente desrespeitada quando a mulher deseja um parto normal. Diversos estudos têm demonstrado que a maioria das mulheres brasileiras deseja um parto normal, embora apenas 20% das usuárias de convênio o consigam (7, 8, 9).

Um grande estudo publicado em 2001 por Potter et al. envolveu entrevistas com 1136 mulheres brasileiras. Cerca de 70 a 80% referiram preferência pelo parto normal e não houve diferença nessa preferência entre as pacientes atendidas pelo setor privado e pelo setor público, embora a taxa real de cesarianas tenha sido de 72% e 31% nesses grupos, respectivamente (7). Os autores concluíram que a grande diferença observada entre as taxas de cesariana no setor público e no setor privado é devida a uma maior taxa de cesarianas não desejadas no setor privado e não à preferência das mulheres por uma operação cesariana. Desta forma, a elevação das taxas de cesariana no Brasil não necessariamente reflete uma maior demanda por esta via de nascimento.

Em outro estudo publicado em 2008, os mesmos autores demonstraram que a maioria dessas cesáreas foi realizada por causas médicas não justificadas, principalmente entre as mulheres que, durante o pré-natal, tinham declarado preferência pelo parto normal! Os autores sugerem que os médicos freqüentemente persuadem suas pacientes a aceitar uma cesariana programada por razões que não existem ou que não justificam este procedimento (8).

Em resumo, embora eventualmente algumas mulheres possam preferir uma cesariana e solicitar que o nascimento ocorra por esta via, as evidências demonstram que a maioria das mulheres brasileiras prefere o parto normal. Há um nítido descompasso entre o discurso médico e a voz das mulheres. Os primeiros alegam que grande parte das cesarianas eletivas sem indicação médica definida ocorre por solicitação das mulheres, enquanto estas últimas afirmam querer o parto normal (7- 9).

Por que então ocorrem as cesarianas? Há uma escassez de estudos sobre os motivos alegados para a realização das cesáreas, porém a freqüência com que estas ocorrem especialmente no setor privado, sugere que muitas são realizadas por indicações duvidosas ou pretextos que não encontram suporte na literatura científica (7-11). Predominam as cesarianas eletivas (fora do trabalho de parto), atribuídas a circulares de cordão, redução do líquido amniótico, bebês "grandes demais" ou "pequenos demais", mitos desprovidos de fundamento que se vão perpetuando no imaginário popular.

A discussão constante sobre cesarianas a pedido, que respondem por uma minoria das cesarianas realizadas em nosso país, escamoteia essa face do problema. É preciso trazer à luz uma questão das mais relevantes: não é ético concordar com a mulher que durante o pré-natal verbaliza seu desejo de um parto normal e depois "criar" justificativas para realizar uma cesariana (10). Estima-se que 60% das cesarianas realizadas correspondam a razões "médicas" duvidosas ou não justificadas! (7-11).

Referências:
1. Departamento de Informática do SUS. Sistema de Informações de Nascidos Vivos. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?idb2009/f08.def. Acesso em: 18.01.2011.
2. Villar J, Valladares E, Wojdyla D, Zavaleta N, Carroli G, Velazco A, Shah A, Campodónico L, Bataglia V, Faundes A, Langer A, Narváez A, Donner A, Romero M, Reynoso S, de Pádua KS, Giordano D, Kublickas M, Acosta A; WHO 2005 global survey on maternal and perinatal health research group. Caesarean delivery rates and pregnancy outcomes: the 2005 WHO global survey on maternal and perinatal health in Latin America. Lancet 2006; 367:1819-29.
3. Lumbiganon P, Laopaiboon M, Gülmezoglu AM, Souza JP, Taneepanichskul S, Ruyan P, Attygalle DE, Shrestha N, Mori R, Nguyen DH, Hoang TB, Rathavy T, Chuyun K, Cheang K, Festin M, Udomprasertgul V, Germar MJ, Yanqiu G, Roy M, Carroli G, Ba-Thike K, Filatova E, Villar J; World Health Organization Global Survey on Maternal and Perinatal Health Research Group. Method of delivery and pregnancy outcomes in Asia: the WHO global survey on maternal and perinatal health 2007-08. Lancet 2010; 375: 490-9.
4. Betrán AP, Merialdi M, Lauer JA, Bing-Shun W, Thomas J, Van Look P, Wagner M. Rates of caesarean section: analysis of global, regional and national estimates. Paediatr Perinat Epidemiol 2007; 21: 98-113.
5. Parecer CREMERJ 190/2008. Disponível em: http://www.cremerj.org.br/skel.php?page=legislacao/resultados.php. Acesso em: 18.01.2011.
6. Ferrari J. A autonomia da gestante e o direito à cesárea a pedido. Revista Bioética 2009; 17: 473-85. Disponível em: http://revistabioetica.cfm.org.br/index.php/revista_bioetica/article/viewFile/512/513.
7. Rebelo F, da Rocha CM, Cortes TR, Dutra CL, Kac G. High cesarean prevalence in a national population-based study in Brazil: the role of private practice. Acta Obstet Gynecol Scand. 2010; 89: 903-8.
8. Potter JE, Berquó E, Perpétuo IH, Leal OF, Hopkins K, Souza MR, Formiga MC. Unwanted caesarean sections among public and private patients in Brazil: prospective study. BMJ. 2001; 323: 1155-8. Disponível em: http://www.bmj.com/content/323/7322/1155.full.pdf.
9. Potter JE, Hopkins K, Faúndes A, Perpétuo I. Women's autonomy and scheduled cesarean sections in Brazil: a cautionary tale. Birth. 2008; 35: 33-40.
10. Faúndes A. Cesárea por conveniência e a ética médica. Disponível em: http://www.cremesp.org.br/revistasermedico/sermedico040506_2002/sintonia.htm.
11. Faúndes A, Padua KS, Osis MJD, Cecatti JG, Sousa MH. Opinião de mulheres e médicos brasileiros sobre a preferência pela via de parto. Rev Saúde Pública 2004; 38: 488-94. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v38n4/21076.pdf.

Fonte: Guia do Bebê