3 de fev de 2011

Por que as taxas de cesárea são tão elevadas no Brasil?


Depois de um fim de ano extenuante e de um período sabático para renovar as energias, estou de volta ao blog! Sei que estou um pouco atrasada, mas antes tarde do que nunca: Feliz 2011 para todos meus queridos leitores!

Para começar o ano com pé direito nada melhor que o mais recente artigo publicado pela Dra. Melania Amorim, sobre a verdade por trás das altas taxas de cesáreas realizadas no Brasil.


Como comentamos no primeiro artigo desta série, as taxas de cesárea no Brasil têm se mantido em ascensão desde a década de 70 e atualmente correspondem a 47,4% dos partos (1). Essas taxas elevadas são decorrentes de um excesso de cesarianas realizadas sem indicação médica definida e se associam com aumento da morbimortalidade materna e perinatal (2, 3, 4).

Quando questionados sobre os motivos do excesso de cesáreas, muitos obstetras irão dizer que a principal causa é o desejo materno, a chamada "cesárea a pedido". Os debates éticos sobre cesariana a pedido são freqüentes e já motivaram pareceres da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), dos Conselhos Regionais (CRM) e do próprio Conselho Federal de Medicina (CFM). Defende-se, e considera-se ético, o direito da mulher de escolher o tipo de parto. A principal justificativa é que os riscos absolutos da cesariana são mínimos e que se deve resguardar o princípio da autonomia (5, 6).

Infelizmente, essa justificativa só tem funcionado no sentido de defender o direito à "escolha" da cesariana, sendo a autonomia feminina freqüentemente desrespeitada quando a mulher deseja um parto normal. Diversos estudos têm demonstrado que a maioria das mulheres brasileiras deseja um parto normal, embora apenas 20% das usuárias de convênio o consigam (7, 8, 9).

Um grande estudo publicado em 2001 por Potter et al. envolveu entrevistas com 1136 mulheres brasileiras. Cerca de 70 a 80% referiram preferência pelo parto normal e não houve diferença nessa preferência entre as pacientes atendidas pelo setor privado e pelo setor público, embora a taxa real de cesarianas tenha sido de 72% e 31% nesses grupos, respectivamente (7). Os autores concluíram que a grande diferença observada entre as taxas de cesariana no setor público e no setor privado é devida a uma maior taxa de cesarianas não desejadas no setor privado e não à preferência das mulheres por uma operação cesariana. Desta forma, a elevação das taxas de cesariana no Brasil não necessariamente reflete uma maior demanda por esta via de nascimento.

Em outro estudo publicado em 2008, os mesmos autores demonstraram que a maioria dessas cesáreas foi realizada por causas médicas não justificadas, principalmente entre as mulheres que, durante o pré-natal, tinham declarado preferência pelo parto normal! Os autores sugerem que os médicos freqüentemente persuadem suas pacientes a aceitar uma cesariana programada por razões que não existem ou que não justificam este procedimento (8).

Em resumo, embora eventualmente algumas mulheres possam preferir uma cesariana e solicitar que o nascimento ocorra por esta via, as evidências demonstram que a maioria das mulheres brasileiras prefere o parto normal. Há um nítido descompasso entre o discurso médico e a voz das mulheres. Os primeiros alegam que grande parte das cesarianas eletivas sem indicação médica definida ocorre por solicitação das mulheres, enquanto estas últimas afirmam querer o parto normal (7- 9).

Por que então ocorrem as cesarianas? Há uma escassez de estudos sobre os motivos alegados para a realização das cesáreas, porém a freqüência com que estas ocorrem especialmente no setor privado, sugere que muitas são realizadas por indicações duvidosas ou pretextos que não encontram suporte na literatura científica (7-11). Predominam as cesarianas eletivas (fora do trabalho de parto), atribuídas a circulares de cordão, redução do líquido amniótico, bebês "grandes demais" ou "pequenos demais", mitos desprovidos de fundamento que se vão perpetuando no imaginário popular.

A discussão constante sobre cesarianas a pedido, que respondem por uma minoria das cesarianas realizadas em nosso país, escamoteia essa face do problema. É preciso trazer à luz uma questão das mais relevantes: não é ético concordar com a mulher que durante o pré-natal verbaliza seu desejo de um parto normal e depois "criar" justificativas para realizar uma cesariana (10). Estima-se que 60% das cesarianas realizadas correspondam a razões "médicas" duvidosas ou não justificadas! (7-11).

Referências:
1. Departamento de Informática do SUS. Sistema de Informações de Nascidos Vivos. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?idb2009/f08.def. Acesso em: 18.01.2011.
2. Villar J, Valladares E, Wojdyla D, Zavaleta N, Carroli G, Velazco A, Shah A, Campodónico L, Bataglia V, Faundes A, Langer A, Narváez A, Donner A, Romero M, Reynoso S, de Pádua KS, Giordano D, Kublickas M, Acosta A; WHO 2005 global survey on maternal and perinatal health research group. Caesarean delivery rates and pregnancy outcomes: the 2005 WHO global survey on maternal and perinatal health in Latin America. Lancet 2006; 367:1819-29.
3. Lumbiganon P, Laopaiboon M, Gülmezoglu AM, Souza JP, Taneepanichskul S, Ruyan P, Attygalle DE, Shrestha N, Mori R, Nguyen DH, Hoang TB, Rathavy T, Chuyun K, Cheang K, Festin M, Udomprasertgul V, Germar MJ, Yanqiu G, Roy M, Carroli G, Ba-Thike K, Filatova E, Villar J; World Health Organization Global Survey on Maternal and Perinatal Health Research Group. Method of delivery and pregnancy outcomes in Asia: the WHO global survey on maternal and perinatal health 2007-08. Lancet 2010; 375: 490-9.
4. Betrán AP, Merialdi M, Lauer JA, Bing-Shun W, Thomas J, Van Look P, Wagner M. Rates of caesarean section: analysis of global, regional and national estimates. Paediatr Perinat Epidemiol 2007; 21: 98-113.
5. Parecer CREMERJ 190/2008. Disponível em: http://www.cremerj.org.br/skel.php?page=legislacao/resultados.php. Acesso em: 18.01.2011.
6. Ferrari J. A autonomia da gestante e o direito à cesárea a pedido. Revista Bioética 2009; 17: 473-85. Disponível em: http://revistabioetica.cfm.org.br/index.php/revista_bioetica/article/viewFile/512/513.
7. Rebelo F, da Rocha CM, Cortes TR, Dutra CL, Kac G. High cesarean prevalence in a national population-based study in Brazil: the role of private practice. Acta Obstet Gynecol Scand. 2010; 89: 903-8.
8. Potter JE, Berquó E, Perpétuo IH, Leal OF, Hopkins K, Souza MR, Formiga MC. Unwanted caesarean sections among public and private patients in Brazil: prospective study. BMJ. 2001; 323: 1155-8. Disponível em: http://www.bmj.com/content/323/7322/1155.full.pdf.
9. Potter JE, Hopkins K, Faúndes A, Perpétuo I. Women's autonomy and scheduled cesarean sections in Brazil: a cautionary tale. Birth. 2008; 35: 33-40.
10. Faúndes A. Cesárea por conveniência e a ética médica. Disponível em: http://www.cremesp.org.br/revistasermedico/sermedico040506_2002/sintonia.htm.
11. Faúndes A, Padua KS, Osis MJD, Cecatti JG, Sousa MH. Opinião de mulheres e médicos brasileiros sobre a preferência pela via de parto. Rev Saúde Pública 2004; 38: 488-94. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v38n4/21076.pdf.

Fonte: Guia do Bebê

6 comentários:

Jo M. E. Guerra de Carvalho disse...

Oi! Excelente artigo... Se bem que isso, tendo em vista a autora, é redundante!
É uma pena, para mães e bebês.
Você já notou que, para fazer qualquer operaçãozinha, são necessários mil exames e que, porém, para fazer uma cesa, não pedem absolutamente nada?
Estranho, né? Tipo, cesárea não tem risco sirúrgico?

Gab disse...

Amiga! Quanto tempo!
Que bom que vc voltou!
Estava sentindo falta dos seus posts sempre cheio de informações e argumentos preciosos pra gente seguir na luta por mais humanização e menos manipulação por parte da medicina !
Beijos nossos!
Gab & Inaê

disse...

Taiza, como ja' falei la' no meu blog, sou fãzoca do seu blog. Indico pra todas as minhas amigas gravidas.

Engraçado pq o resultado desse artigo não me choca em absolutamente nada, pq é exatamente a realidade que vejo entre as minhas amigas que moram no Brasil. Quando elas me contam do que os médicos inventam para nao fazer PN, eu quase caio pra tras!

Beijos!

Taiza disse...

Jo, é porque no Brasil cesárea é "parto" e não cirurgia! rsrsrs

Gab querida, tava recarregando as baterias! Mas estou de volta com força total!

Dé, obrigada pela visita e por indicar o blog! Realmente a gente escuta cada coisa por aí... cada desculpa esfarrapada que até me arrepia! Mas informação e escolhas conscientes são a chave para a mudança!

Lia disse...

Fora que a maioria das mulheres que quer cesárea é por falta de informação. A ética médica deveria levá-las a esclarecer essas mulheres sobre os riscos de uma cesárea sem indicação médica, especialmente sem trabalho de parto. Se eu chegar com um pequeno sobrepeso a um médico e solicitar uma cirurgia de redução bariátrica, ele não pode, pela ética médica, simplesmente fazer. Tem de ter toda uma avaliação para ver se o paciente se aplica. Mesma coisa deveria ser feita com cesárea a pedido (que, aliás, os convênios não deveriam pagar).

Inês Baylão disse...

Querida!!! Você voltou com tudo!!!! Fez bem tirar umas férias..... Post muito legal, aliás você é uma ótima blogueira (e doula também!)
Bjs